segunda-feira, 3 de março de 2014
Carnaval
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Entrando em 2012
Os movimentos de indignad@s que brotaram este ano e continuam florescendo nos mais diversos rincões do planeta nos gritam que algo está errado: na maneira como funciona a economia; na forma como são tomadas as decisões que dizem respeito a tod@s; na forma como nós humanos nos relacionamos entre nós e como interagimos com as demais espécies que constroem conosco o mundo que habitamos. Esses movimentos são sinais de que algo está em crise.
O ideograma chinês que traduz a palavra "crise", wei-ji, está composto por dois símbolos: o primeiro, wei, significa perigo; o segundo, ji, ponto de mutação. A crise é, portanto, uma oportunidade ímpar de transformação.
Que 2012 represente uma ocasião única de repensarmos e transformarmos a maneira como pensamos, falamos e agirmos; de revermos nossas concepções do supérfluo e do necessário; de compreender-nos a nós mesmo um pouco melhor; de pararmos para respirar, para refletir e para viver.
Feliz Ano Novo a tod@s!sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Dersu Uzala: o pequeno homem das grandes florestas
O último encontro de 2011 do meu projeto cultural Café com Cinema exibe o longa-mentragem Dersu Uzala de Akira Kurosawa, lançado em 1975 e baseado no livro autobiográfico homônimo do escritor e explorador russo Vladimir Arseniev, publicado pela primeira vez em 1923. Ambos reconstroem uma grande amizade surgida no começo do século XX entre as planícies e as montanhas da taiga da região siberiana do Uçuri, no extremo leste da Rússia asiática.
Arseniev e Dersu se conheceram em 1902, durante a primeira expedição do cartógrafo à taiga uçuriana em cujas montanhas, por acaso, encontrou o caçador de etnia gold. Fascinado por Dersu desde o começo, o Capitão, como o gold costumava chamá-lo, estreitou em pouco tempo um profundo vínculo afetivo com aquele pequeno homem da floresta. Nasceu entre os dois uma relação de intensa amizade, de mútuo respeito e de recíproca admiração. Durante as três expedições em que Arseniev ficou ao lado de Dersu – além da de 1902 em que se conheceram, estiveram juntos em mais duas de, respectivamente, 1906 e 1907 – o caçador lhe salvou a vida em várias ocasiões graças à sua atenção sempre desperta e aguçada, à sua sensibilidade sensorial extremamente afinada, à sua generosidade e o seu desprendimento. Da mesma forma, Arseniev contribuiu em algumas ocasiões a tirar o amigo de perigos, o ajudou na caça, serviu-lhe de prótese visual quando seus olhos começaram a falhar-lhe.
À medida que ia conhecendo melhor o gold, Arseniev o admirava e apreciava mais e sua relação simbiótica com a taiga, seus sentidos sempre vígeis e alertas, sua audição, seu olfato e sua sensibilidade tátil extremamente sutis, sua incrível capacidade de perceber os mínimos movimentos, as mais leves variações do ambiente ao seu redor, de prever mudanças climáticas, perigos ou circunstâncias favoráveis, de interpretar os sinais do vivo e do não-vivo, sua formidável intuição fizeram com que o Capitão se sentisse confiante quando estava do lado dele.
Arseniev e Dersu tinham distintas estratégias de interação com o ambiente: o caçador gold praticava uma atenção plena para as mais diversas manifestações da natureza, enquanto a atenção do escritor estava direcionada para elementos previamente concebidos como significativos dentro de suas grades conceituais. Tinham diferentes percepções da taiga e de si mesmos com relação a ela: Dersu a via como uma teia complexa de inter-retroações da qual se sentia apenas mais um fio; Arseniev a experienciava como um imponente cenário, um imenso palco no qual encenava o drama épico de suas expedições. Suas representações dos fenômenos do domínio do vivo e do não-vivo e seus sistemas de significações eram muito distantes. Mesmo assim, Arseniev e Dersu respeitavam e admiravam reciprocamente suas distintas maneiras de ser e estar no mundo, faziam-nas dialogar, reconheciam seu valor e sua pertinência, amiúde sua convivência fazia-as se compenetrarem, se contaminarem, se hibridarem.
As estratégias de interação com o ambiente de Dersu em diversas ocasiões “contaminam” Arseniev, despertando-lhe uma atenção mais sutil para as mais diversas manifestações e movimentos do ambiente ao seu redor. Além da pertinência – estabelecida por Arseniev pela “comprovação” das afirmações do amigo através da experiência - das inferências realizadas pelo gold a partir de indícios sensoriais percebidos no ambiente, o que mais “deslumbrava” o explorador era a atitude cognitiva a partir da qual Dersu as construía. Elementos para os quais não atentava devido à insignificância deles para o seu sistema de organização da experiência forjado em ambientes urbanos e científico-acadêmicos como, por exemplo, as configurações dos troncos de determinadas árvores e o que estava no chão debaixo delas, passaram a entrar em seu campo de percepção sensorial, sua atenção começou a direcionar-se para aspectos do vivo e do não-vivo que antes não considerava relevantes e, conseqüentemente, passavam-lhe despercebidos. A incrível – pelo menos para ele, nascido na cidade – afinação sensorial de Dersu instilava-lhe uma extrema confiança no amigo e estimulava-o a adotar pelo menos em parte estratégias de interação com os ecossistemas da taiga semelhantes às do caçador. Esta relação lhe propiciou muitos novos aprendizados. A convivência com Dersu também instigou Arseniev, o tempo todo, a re-definir representações que tinha construído sobre o mundo a partir de sua experiência urbana e dos sistemas de significados, de pré-conceitos dos quais tinha se impregnado em ambientes científico-acadêmicos, como a suposta dicotomia entre homem “primitivo” e homem“civilizado”.
Mas troca de estratégias de interação com o ambiente e de saberes entre o escritor e o caçador não afetou apenas Arseniev: Dersu também saiu enriquecido desta convivência, na qual aprendeu a observar a realidade de formas diferentes das que estava acostumado, como a associação entre seu aparelho perceptivo a algumas próteses tecnocientíficas (bússola, binóculo), e incorporou novos conhecimentos que lhes resultaram pertinentes para o contexto do qual sentia-se parte. Tudo isso mostra, a meu ver, quão rica foi a convivência de Arseniev com Dersu e como ela foi capaz de originar novos conhecimentos e novas formas híbridas de interagir e imputar sentido ao mundo.
Um recurso narrativo do filme de Akira Kurosawa expressa a intensidade da relação que se construiu entre os dois amigos. Uma seqüência de fotografias em preto e branco que imortalizam fragmentos do cotidiano na taiga de Arseniev, Dersu e os demais homens da expedição, com um fundo musical alegre e descontraído, pára de repente quando chega a uma em que os dois, sentados juntos aos cossacos, entrecruzam sorrindo seus olhares. A câmera realiza então um zoom que foca, em primeiro plano, este olhar entre o explorador e o caçador, um olhar que transmite à flor da pele os seus sentimentos de cumplicidade, de afeto, de respeito, de confiança e de admiração mútua.
Mas Kurosawa, a meu ver, vai além da reconstrução da amizade entre o explorador e o caçador: talvez intuindo essa recíproca codefinição de Dersu e da taiga, transforma esta última em mais um ator da história narrada, evitando a tentação de reduzi-la a um simples “cenário”. No filme os primeiros planos de figuras humanas são raríssimos: quase toda a ação desenvolve-se em planos de conjunto, em que humanos e não-humanos parecem ter a mesma importância dramática e há, além do mais, belíssimas e longas seqüências em que a taiga é a única protagonista.
Pelo que mostrei, a amizade entre Arseniev e Dersu pode ser concebida como uma vibrante metáfora do diálogo possível entre formas diferentes de conhecer e interagir com a realidade, entre cultura científica e saberes da tradição. Tenho plena consciência de que se trata de uma minha imputação de sentindo a posteriori e que, provavelmente, Arseniev e Dersu não percebiam desta forma a sua relação nem tinham - pelo menos conscientemente - a intenção de instaurar um diálogo/hibridação entre suas estratégias cognitivas e saberes. Porém, acredito ser pertinente considerar esta amizade nascida entre as montanhas da taiga do Uçuri como uma manifestação arquetípica, uma encarnação da complementaridade entre duas formas distintas, mas não opostas nem separadas, de conhecer, narrar e relacionar-se com o mundo.
A morte de Dersu, nesta perspectiva, também impregna-se de um forte valor simbólico. Fugindo da cidade, onde suas estratégias de interação com o real deixavam de ser consideradas pertinentes perdendo legitimidade, acaba sendo assassinado por bandidos - provavelmente de origem urbana – em uma zona de transição entre um centro urbano e a taiga. Desconhecido pelos habitantes da cidade, desapareceu do mundo tão anonimamente como nele tinha vivido, mergulhando na taiga da qual sempre fora um fio indissolúvel, enterrado numa sepultura improvisada às margens da floresta sem qualquer referência que o identificasse e que anos depois já tinha sido engolida pelo avanço da cidade. Um fim que se configura, aos meus olhos, como uma dolorosa metáfora do progressivo desaparecimento – que hoje assistimos cada vez mais – de inteiras culturas tradicionais e seus riquíssimos corpus de conhecimentos, formas de interagir com o mundo e de imputar sentido aos fenômenos, estilos de vida. Um desaparecimento tão anônimo como o de Dersu, paralelo às vertiginosas transformações de seus ambientes – com os quais suas formas de construir conhecimento e de viver são interdependentes – produzidas pelas exigências e os ritmos impostos pelo mito do “progresso”.
Mas se Dersu viveu, se hibridou com a taiga, desenvolveu sua incrível sensibilidade sensorial, forjou suas estratégias de interação com a realidade e construiu seus conhecimentos de forma totalmente anônima, longe dos olhos do mundo e evitando o mais possível o contato com a civilização urbana que - como ele sabia - o teria destruído, uma parte do imenso patrimônio de saberes e de formas de conceber e de relacionar-se com a natureza não-humana que o caçador gold encarnava foi reconstruído e oferecido à humanidade como um preciosíssimo legado pela arte de Vladimir Arseniev e de Akira Kurosawa. O livro de Arseniev teve uma fortíssima repercussão na Rússia czarista primeiro e soviética depois, transformando-se em pouco tempo em um clássico e sendo traduzido para diversos idiomas. O longa de Kurosawa venceu o Prêmio Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles (Estados Unidos) como melhor filme estrangeiro em 1976, o Prêmio David di Donatello da Academia Italiana de Cinema na categoria de melhor diretor de filme estrangeiro em 1977, teve um enorme sucesso de público em diversos países e é considerado pela crítica como uma das mais belas obras cinematográficas realizadas até hoje. Dersu viveu e morreu anonimamente na taiga, jamais soube o que é literatura e muito menos conheceu o cinema, mas através destas artes fragmentos da sua existência e parte dos seus conhecimentos e das suas formas de interagir com a natureza não-humana emocionaram, fizeram pensar, estimularam a ressignificar conceitos, se transformaram em lições de vida, de sabedoria e de relação com o ambiente para milhões de pessoas em sua Rússia natal e no mundo. Isso também, aos meus olhos, se imbui de um intenso valor metafórico: mostra que é possível, através da arte ou de uma ciência aberta e polifônica, promover uma ecologia dos conhecimentos que incorpore, valorize, dê voz às cosmogonias, os saberes e as estratégias de interação com o mundo de indivíduos e populações cujas culturas e estilos de vida são esquecidos, ameaçados e, com freqüência, discriminados pela ciência e cultura dominantes.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
O que é O Condor Errante
Se você tem interesse em discutir de forma aberta, livre e polifônica temáticas sociais, ambientais, políticas, filosóficas, psicológicas, existenciais, educacionais, comunicacionais, espirituais, artísticas (literárias, cinematográficas, etc.); acredita que diferentes áreas do conhecimento e diferentes saberes, olhares sobre o mundo e linguagem podem e devem dialogar, se entrelaçar e se miscigenar; está ligado(a) nas mídias sociais e as utiliza como espaço de encontro de idéias, experiências, emoções, mobilização coletiva e horizontal para melhorar o mundo, como lugar de promoção de novas práticas, novas maneiras de ver e de viver e como lugar de partilha; acredita que um outro mundo é possível, mas não inevitável e que a mudança é uma aposta cotidiana que começa em nosso pensamento e nosso modo de viver... Se você é assim, O Condor Errante é um blog que pode lhe interessar.
O Condor Errante é mais um espaço para o exercício do pensamento livre e criativo que desabrochou na efervescente blogosfera brasileira e seu autor atua também no Facebook e no Twitter.
Se você gosta de voar, lhe convidamos para se tornar um seguidor de O Condor Errante neste blog e nas redes sociais:
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Literatura e cinema: escolas de vida
Tenho uma íntima convicção: a de que obras literárias, cinematográficas ou qualquer outra expressão artística nos revelam muito mais sobre o homem, a sociedade, a natureza, a vida do que complexos tratados científicos (sem que isso impeça que as ciências estejam tão impregnadas de subjetividade, intuição e criatividade quanto as artes). Como Edgar Morin em A cabeça bem feita, concebo literatura e cinema como “escolas de vida” (p. 48). Em primeiro lugar, porque estimulam um processo de identificação/projeção de nossas pulsões, nossos medos, nossas neuroses, nossos fantasmas, nossos desejos. Revela Morin na obra citada: “Livros constituem ‘experiências de verdade’, quando nos desvendam e configuram uma verdade ignorada, escondida, profunda, informe, que trazemos em nós, o que nos proporciona o duplo encantamento da descoberta de nossa verdade na descoberta de uma verdade exterior a nós, que se acopla à nossa verdade, incorpora-se a ela e torna-se a nossa verdade. (p. 48).
Isso é possível porque, como o próprio Morin acrescenta, livros e filmes são “escolas da complexidade humana” (p. 49). Enquanto, na maioria dos casos, as obras de caráter científico – mesmo as mais abertas e polifônicas - necessitam separar para discernir, conceituar (o que é sempre um processo de redução do real), recortar, definir um foco, objetivar distinguindo o que é da ordem do sujeito do que é da ordem dos fenômenos observados (mesmo quando, e isso é cada vez mais freqüente nas ciências contemporâneas, reconheça a participação ativa do sujeito na construção do seu objeto e a impossibilidade de um conhecimento depurado de subjetividade). Dos romances, cartas, relatos autobiográficos, ensaios e filmes emergem imbricados, compenetrados, inextricavelmente entrelaçados os mais diversos aspectos da existência, as mais diversas dimensões do real, as mais diversas faces do sujeito. É na arte, como afirma ainda Morin, “que percebemos que Homo sapiens é, ao mesmo tempo, indissoluvelmente, Homo demens” (p. 49).
Medos, anseios, obsessões, impulsos, condicionamentos conscientes e inconscientes: a emaranhada teia de fatores subjetivos e objetivos (entendendo estes últimos como os determinados pelas redes de inter-retroações do sujeito com o mundo, concebendo o sujeito e tudo o mais como híbridos em permanente redefinição) contribui para configurar determinadas situações, relações, personalidades, estratégias cognitivas que aparecem em toda a sua complexidade nas obras artísticas, que não estão amarradas aos imperativos da conceituação.
No dia a dia, temos a insana tendência a operarmos o pensamento por redução, simplificação, univocidade. É mais prático e nos proporciona uma – mesmo que frágil - sensação de certeza., de segurança. Construímos nossa imagem dos outros a partir de uns poucos elementos, os que mais se adéquam a nossos sistemas prévios de significações ou que mais ganham saliência ao nosso olhar. Os organizamos em uma representação coerente e esta impregna nossa percepção, contribui para estruturar nossa experiência, configura os nossos julgamentos. Nos sentimos aliviados ao poder afirmar: fulana é uma prostituta, beltrano é um pai de família, sincrano é um traficante... Tudo tem seu lugar no mosaico que vamos compondo e que acaba se tornando a própria realidade que habitamos.
Mas eis que os romances e os filmes – pelo menos, os bons romances e os bons filmes – vêm ai e estilhaçam esse castelo de certezas. Nos sacodem, nos tiram o chão, abalam nossos fundamentos, nos instigam a repensar nossos pressupostos. Nos mostram que um torturador tem nossas mesmas obsessões, um assassino tem nossos mesmos medos, uma prostituta tem nossos mesmos sentimentos, um estelionatário tem nossos mesmos fantasmas, um oficial nazista capaz de matar milhares de pessoas numa câmara de gás é um pai carinhoso e um amante da boa música, um terrorista é afetuoso e desprendido, um traficante é capaz de solidariedade e altruísmo, um ladrão tem ética... Nos mostram que cada um de nós está parasitado pelos mais mesquinhos desejos e os mais elevados arrebatamentos, os mais violentos impulsos e a mais desinteressada generosidade. Nos revelam nossas múltiplas faces, nos colocam diante de nossa natureza intrinsecamente, ineludivelmente contraditória... porque no que é inacabado, no que é aberto, no que é polifônico, no que é mestiço os opostos não se excluem, mas convivem e se complementam.
