terça-feira, 29 de maio de 2012

O twittaço #ChicoParaTod@s deu início ao movimento #CulturaParaTod@s em Natal


O twittaço #ChicoParaTod@s, que levou essa hashtag no primeiro lugar dos Twitter Trends em Natal na noite de segunda-feira, 28 de maio, foi a primeira iniciativa do movimento #CulturaParaTod@s: um movimento espontâneo, não vinculado a qualquer organização nem partido político, sem lideranças, articulado pelas redes sociais e que junta cidadãs e cidadãos de Natal que se preocupam com a cultura e, em geral, com a cidadania.

A proposta do movimento, que defende políticas de promoção, incentivo e efetivação do acesso à cultura em Natal, é realizar ações virtuais e presenciais criativas e pacíficas que sensibilizem sobre a falta de acesso à cultura na capital potiguar, cobrem mudanças nas políticas culturais e levem cultura e arte para as ruas e praças.

O preço cobrado para os shows de Chico Buarque no Teatro Riachuelo, que excluiu a grandissíssima maioria dos apaixonados(as) pelo compositor que vivem em Natal da possibilidade de assistí-lo ao vivo, é conseqüência de um conjunto de fatores:

• A  ausência de espaços físicos e de organizações – privadas ou públicas – capazes de comportar um show desse porte além do Riachuelo;

• A falta de políticas de promoção, incentivo e efetivação do acesso à cultura em Natal.

Até alguns anos atrás, era possível assistir shows de grandes artistas nacionais – Caetano Veloso, Djavan, Maria Rita, Marisa Monte, Ney Matogrosso e vários outros – a preços acessíveis no Machadinho e até shows gratuitos – Gilberto Gil, Paralamas e Titãs, Fagner, etc. – no Machadão. Derrubaram essas estruturas para fazer o estádio da Copa e, além de não fazerem as obras de mobilidade e o saneamento, tampouco se preocuparam com providenciar estruturas alternativas que pudessem hospedar eventos culturais de grande porte para a maioria da população.

Acabaram com o Projeto Seis e Meia, que trouxe para Natal grandes artistas nacionais por um preço simbólico.

Acabaram com projetos como o Domingo na Praça, que traziam cultura de forma gratuita e acessível a tod@s em espaços públicos.

Não há políticas de valorização do Teatro Alberto Maranhão, de apoio a iniciativas como a Casa da Ribeira, nem de valorização do patrimônio histórico da cidade (Ribeira, Centro Histórico, etc.) que poderia se tornar um lócus de promoção cultural.

Artistas da cidade, muitos dos quais têm produção autoral de alta qualidade, ainda estão receber por serviços culturais prestados à Prefeitura.

Pela falta de apoio, músicos que têm produção autoral de qualidade são obrigados a se apresentarem no circuito da noite e até isso lhes foi proibido agora. A primeira virada cultural ao ar livre que Natal ia ter foi proibida pela Prefeitura, mas todos os anos se fecham ruas, se criam transtornos enormes na cidade inteira e se patrocina de diversas formas uma festa privada sem conteúdos culturais significativos.

Enfim, não há políticas para a cultura estruturais, de longo prazo, estratégicas e de Estado (não de Governo). São essas as razões que fizeram emergir o movimento #CulturaParaTod@s.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A hashtag #ChicoParaTod@s chegou no primeiro lugar dos Twitter Trends em Natal

O twittaço #ChicoParaTod@s, primeira iniciativa do movimento #CulturaParaTod@s pela democratização da cultura – em todas suas expressões – em Natal foi um sucesso: durante o twittaço, a hashtag ocupou o primeiro lugar dos Twitter Trends na capital potiguar.

Agradeço a tod@s que contribuíram para o êxito da ação, com a esperança de que desperte uma reflexão na sociedade sobre a situação e os rumos da cultura na cidade e um incentivo para uma mobilização permanente em favor de políticas que promovam sua produção e democratizem o acesso a ela.

O twittaço foi só o primeiro passo de uma longa caminhada em prol de uma #CulturaParaTod@s em Natal.

domingo, 27 de maio de 2012

Twittaço #ChicoParaTod@s pela democratização da cultura em Natal – Segunda-feira, 28 de maio, das 21 às 23 horas


O preço absurdo cobrado para os shows de Chico Buarque dos próximos dias 28 e 29 de maio, que excluiu a grandíssima maioria dos cidadãos e cidadãs de Natal apaixonad@s pelo cantor da possibilidade de assistir sua apresentação na capital potiguar, é conseqüência da falta de espaços físicos para a cultura na cidade (que faz com que o Teatro Riachuelo, sendo o único lugar apto para um show desse porte, possa praticar as políticas que bem entender); da ausência de políticas culturais - seja de incentivo à cultura como de promoção do acesso a ela - por parte do município e do Estado; do desinteresse do poder público e dos poderes econômicos locais pela promoção cultural e do interesse das elites cidadãs em manter a cultura como um bem de acesso restrito.

Natal nunca foi uma cidade que preza pela cultura. Porém, antes que derrubassem o Machadão e o Machadinho a população local teve a oportunidade de assistir no segundo shows de grandes artistas nacionais como Caetano Veloso, Djavan, Maria Rita, Ney Matogrosso e muitos outros a preços acessíveis, às vezes menos de cinqüenta reais; por não falar de shows completamente gratuitos no Machadão, na época do Natal, de artistas como Gilberto Gil, Paralamas do Sucesso com os Titãs, Fagner e outros. Acabaram com o Projeto Seis e Meia no Teatro Alberto Maranhão, promovido pela Fundação José Augusto, onde uma vez por mês por apenas dez reais @s natalenses puderam assistir artistas como Zeca Baleiro, Belchior, Oswaldo Montenegro, Alceu Valença e vários outros, além de curtir o melhor da música autoral de qualidade produzida em terra potiguar, que é sistematicamente excluída do circuito cultural atual dominado pelo Teatro Riachuelo.

Por tudo isso, os shows de Chico Buarque em Natal são a ocasião para darmos o pontapé inicial do #CulturaParaTod@s, uma campanha permanente em favor da promoção e da democratização da cultura - em suas múltiplas expressões - em Natal.

SEGUNDA-FEIRA, 28 DE MAIO, DAS 21 ÀS 23 HORAS (coincidindo com o primeiro show de Chico Buarque em Natal): participe do primeiro twittaço pela democratização da cultura na capital potiguar!

TT E DÊ RT EM MENSAGENS QUEN CONTENHAM A HASHTAG #ChicoParaTod@s

Participe, mesmos se estiver entre os que irão assistir o show, porque democratizar a cultura é uma luta de tod@s em benefício de tod@s, sem distinção!

POR FAVOR, DIVULGUE ESTE CONVITE PARA TODOS OS SEUS CONTATOS: CONTRIBUA COM ESTE MOVIMENTO CIDADÃO ESPONTÂNEO, APARTIDÁRIO, AUTO-ORGANIZADO E CRIATIVO EM PROL DE UMA #CULTURAPARATOD@S NA NOSSA CIDADE!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A sessão de 26 de maio do Café com Cinema exibirá o longa cubano Morango e Chocolate, o mais votado entre os seguidores do projeto


A votação do filme que será exibido na sessão de sábado, 26 de maio, do projeto cultural Café com Cinema, que acontece a partir das 18:30 no auditório da PotyLivros (Praia Shopping), em Natal, terminou à meia- noite de domingo, 13. Os(as) interessados(as) manifestaram suas preferências entre oito opções disponíveis, todas de filmes latino-americanos ou de temáticas sociais latino-americanas, e o mais votado - com 12 indicações, 11 no Facebook e uma por e-mail - foi Morango e Chocolate (Fresa y Chocolate), de Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío (Cuba, 1994). O longa-metragem cuabo será, portanto, a obra exibida na próxima sessão do Café com Cinema.

Dos outros filmes propostos, o colombiano La Sombra del Caminante de Ciro Guerra (2004) ficou em segundo lugar, com 5 votos; o argentino Iluminados pelo Fogo (Iluminados por el Fuego), de Tristán Bauer (2005), recebeu 4 votos e o também argentino A História Oficial (La Historia Oficial), de Luís Puenzo (1985), recebeu 2 preferências. Todos os demais não receberam nenhum voto. As três obras que receberam indicações serão apresentadas em novas votações para as próximas sessões do projeto cultural.

Uma cena de Morango e Chocolate

Morango e Chocolate, ambientado em Havana em 1979, narra a história de um jovem universitário comunista, David (Vladimir Cruz), que conhece um artista gay, Diego (Jorge Perugorría), revoltado com as políticas do regime de Fidel Castro para com os homossexuais. Apesar de David tentar a todo custo evitar qualquer contato com Diego, uma série de circunstâncias acaba aproximando cada vez mais os dois, entre os quais surge aos poucos uma profunda amizade que nem suas diferentes visões de mundo, nem uns acontecimentos que levarão Diego a tomar decisões sofridas conseguirão abalar. O longa é um dos últimos filmes dirigidos por Tomás Gutiérrez Alea, o cineasta cubano de maior projeção internacional do século XX, que faleceu em 1996 e, encontrando-se doente, teve que ser auxiliado na direção por seu amigo Juan Carlos Tabío. Morango e Chocolate foi o primeiro filme cubano a ser nomeado para o Óscar.

Lhe aguardamos na sessão de sábado, 26 de maio, do Café com Cinema, onde após a exibição do filme será realizado um diálogo entre tod@s @s participantes com base nas provocações e pistas de reflexão despertadas pela obra e, no final do encontro, será realizado o sorteio de um livro. Para reservar seu lugar, totalmente gratuito, escreva para cafecomcinemanatal@gmail.com e, desde já, seja muito bem-vind@!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Aberta a votação do filme a ser exibido na sessão de 26 de maio do Café com Cinema


A próxima sessão do Café com Cinema - que acontece sábado, 26 de maio, às 18:30 no Auditório da PotyLivros (Praia Shopping), em Natal - exibirá um filme latino-americano ou de temática latino-americana. Pela primeira vez desde que o Café com Cinema estreou, o filme exibido não será escolhido pela coordenação do projeto, mas votado pelo público entre um leque de oito opções. Para participar da votação, clique aqui e entre no evento criado no Facebook para este fim ou escreva para cafecomcinemanatal@gmail.com indicando no assunto Votação Sessão 26/05 e indicando o filme escolhido no corpo do texto.

O prazo para votar é até domingo, 13 de maio, e o reusltado será divulgado segunda-feira, 14.

As opções são as seguintes:

MACHUCA - Andrés Wood (Chile, 2004)
A história se passa em 1973, quando o Chile vive uma situação conturbada, em pleno governo de Salvador Allende. Há passeatas em defesa do seu governo, em defesa do socialismo, e outras, organizadas pela direita nacionalista que quer retomar ao poder. Gonzalo é um garoto de classe média-alta que estuda no Colégio Saint Patrick, o mais conceituado da capital, Santiago. O padre McEnroe, diretor do colégio pelo governo Allende, aplica uma política que permite que alunos pobres estudem no Saint Patrick. Um deles é Pedro Machuca. A partir de uma briga na escola, surge uma amizade entre os dois garotos. As aproximações e distanciamentos que ocorrem a partir da diferença de classe dos meninos são a chave da trama.
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=OsLL2uLaEDA

A HISTÓRIA OFICIAL (La Historia Oficial) - Luís Puenzo (Argentina, 1985)
Alicia é uma professora de história da classe média argentina. Ela convive com pessoas tanto de esquerda quanto de direita, mas desconhece as tragédias pessoais geradas em seu país pela ditadura militar (1976-1983). É uma mãe atenciosa para a filha Gaby, uma criança adotada e trazida para casa por seu marido Roberto. Após o retorno do exílio da amiga Ana, uma ex-presa política, Alicia começa a descobrir os horrores praticados contra os opositores do regime. Ela começa então a crer na possibilidade de que seu marido teria mantido relações escusas com a máquina repressora do regime e adotado Gaby depois que seus pais, possíveis presos políticos, foram assassinados. A investigação de Alicia para descobrir a origem de sua filha a leva a hospitais insalubres, à igreja frequentada pela família (onde se depara com o silêncio do padre, numa cena que causou problemas com a Igreja Católica por retratar a omissão desta para com o regime) e, finalmente, a uma manifestação das Mães da Praça de Maio, onde encontra aquela que seria a avó biológica de sua filha.
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=drcYUlHBx1Y

MORANGO E CHOCOLATE (Fresa y Chocolate) - Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío (Cuba, 1994)
A história passa-se em Havana em 1979. David, um estudante universitário comunista, conhece Diego, um artista gay descontente com a atitude do regime de Fidel Castro para com os homossexuais e com a censura cultural. David tenta a todo o custo evitar qualquer convivência com Diego. Porém, diversas circunstâncias levam a que se estabeleça entre os dois uma sólida amizade, que nem os diferentes conceitos de vida conseguem perturbar.
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=q9RVwP8mbcw

DESEJO DE SER MÃE (Nordeste) - Juan Diego Solanas (Argentina, 2005)
Aos 43 anos de idade, depois de sacrificar quase tudo para alcançar seus objetivos na carreira, Helene, uma linda e poderosa francesa, decide mudar o rumo de sua história. Seu desejo de ser mãe a leva a parte mais remota da Argentina, a procura de uma criança para adotar. Lá ela descobre o Nordeste, uma região deserta onde a beleza do campo contrasta com a miséria, a violência e a corrupção, mas descobre também a amizade e as carências de um povo. Helene está frente a frente com uma realidade que desconhecia, mas determinada a realizar seu grande desejo.
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=RWLip61W2ek

MUTUM - Sandra Kogut (Brasil, 2007)
Filme baseado em uma obra de João Guimarães Rosa. Mutum é um local isoldado do sertão de Minas Gerais, onde vivem Thiago e sua família. Thiago tem apenas 10 anos e, juntamente com seu irmão e único amigo Felipe, é obrigado a enxergar o nebuloso mundo do adultos.
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=Ob2j29lZUog

ILUMINADOS PELO FOGO (Iluminados por el fuego) - Tristán Bauer (Argentina, 2005)
O filme narra as lembranças de Esteban Leguizamón, um homem de 40 anos que, em 1982, quando tinha apenas 18 anos, foi levado como soldado conscrito a combater nas Ilhas Malvinas. A partir da tentativa de suicídio de um de seus ex-companheiros, Esteban mergulha nas recordações dessa guerra que compartilhou com outros jovens recrutas: Vargas, o suicida, e Juan, morto em combate. Ali aparecem, não só horrores próprios da guerra, o frio, a fome e os maltratos dos próprios comandantes militares, como também as histórias de amizade e companheirismo.
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=lPtuJetjXbc

HOMENS ARMADOS (Men with Guns) - John Sayles (Estados Unidos, 1997)
É um filme norte-americano independente gravado integralmente na América Latina, com atores latino-americanos e falado totalmente em espanhol. A história se passa em algum país do continente. Humberto Fuentes (interpretado pelo grande ator argentino Federico Luppi) é um médico de posses prestes a se aposentar cuja mulher morreu recentemente. Apesar dos conselhos de seus filhos, ele decide fazer uma viagem para rever alguns antigos alunos que trabalham em aldeias pobres. Porém, sua jornada se transforma numa luta política quando ele descobre que um dos estudantes foi morto pelo exército.
Trailer: Não encontrado

LA SOMBRA DEL CAMINANTE - Ciro Guerra (Colômbia, 2004)
Mañe está passando por uma situação econômica difícil. Perdeu uma perna e, portanto, não consegue trabalho. Não pode pagar seu aluguel e é alvo de zombaria e escárnio de seus colegas. À medida que percorre as ruas à procura de como sobreviver, conhece um personagem incomum: um homem que ganha a vida levando pessoas ao redor da cidade em uma cadeira amarrada às costas. O gesto do bom samaritano dá início a uma amizade singular entre os dois. É isso que deixará a vida de Mane mais suportável e com esperança de começar de novo.
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=agqPLUMod24

sábado, 5 de maio de 2012

Anotações de um viajante - Cuba, 1997


Aos vinte e um anos, no remoto – nesta época de aceleração frenética da existência - final do século passado, mais exatamente em 1997, passei diversos meses em Cuba e, no dia a dia daquela ilha caribenha em pleno período especial (uma época de enormes privações que o país sofreu após a queda da ex-União Soviética, que sustentava sua frágil economia), aprendi que posso viver com muito menos do que antes acreditava que precisasse: intui, pela primeira vez, que as nossas “necessidades” não são “dados”, mas construções fruto da nossa dialógica com o real, construções nas quais intervém nossa biografia e o emaranhado conjunto de valores, conceitos, expectativas da sociedade de onde emergimos.

No interior da Isla Grande, como também é chamada, vivi uma experiência que me proporcionou o primeiro vislumbre de uma consciência que só dois anos depois adquiriria uma forma nítida. Durante uma viagem de mochila pelas províncias do interior do país, ao chegar à pequena cidade de Manzanillo no distrito de Bayamo, o mais pobre de toda a ilha, me acometeu uma violenta infecção intestinal e nem o posto de saúde mais próximo, nem o hospital onde depois me direcionaram dispunham de antibióticos para fazer frente à emergência. Uns amigos de lá, em cuja moradia extremamente humilde me encontrava hospedado, chamaram então um curandeiro, alegando que a prática comum na sua comunidade para este tipo de doenças era um tipo de massagem nos tornozelos praticado por estes mestres – reconhecidos pelo povo, mas não pelas autoridades médicas e políticas do país - da medicina “tradicional”. Desesperado, deixei que o curandeiro fizesse a massagem nos meus tornozelos, apesar de não cultivar muitas expectativas sobre os efeitos daquela “cura” posto que, em minha maneira disjuntiva de perceber o real, não conseguia enxergar conexão alguma entre aquela massagem e a bactéria que estava afetando meu organismo. Ao acordar no dia seguinte, por minha enorme e imensamente grata surpresa, estava completamente sem febre e quase sem mais cólicas. Poucas horas depois, estava em plena saúde.

Naquele dia, apesar de não ter esta consciência ainda nitidamente definida, comecei a vislumbrar a possibilidade de que saberes, formas de conhecimento e interação com o mundo ditas “não-científicas” não deviam possuir um valor cognitivo inferior, nem – e disso tinha sido testemunha – uma menor eficácia na produção de transformações no real do que as das consideradas “científico-racionais”.

Minha experiência em Cuba produziu também outra mudança de percepção importante. Lá vivenciei em primeira pessoa, sem mediações ideológicas, a dura realidade de um regime totalitário que exerce um controle obsessivo de cada aspecto da vida dos seus cidadãos. O que mais me impactou, entre vários outros aspectos, foi saber que cada quarteirão de toda cidade e aldeia da ilha possui “observadores” não revelados dos chamados Comitês de Defesa da Revolução, órgãos de repressão política, que podem ser qualquer pessoa e que por isso qualquer comentário, comportamento ou atitude “suspeitas” para o regime podem ser “delatadas” à polícia política pelos seus vizinhos, amigos ou conhecidos.

Também me estarreceu perceber que, em uma época de completo desastre econômico-social do país, o regime mesclava uma vazia retórica ufanista – resultava cômico, se não tivesse sido trágico, ver todo dia coloridos murais com rostos de Che Guevara estampados e empolgantes palavras alardeando o espírito solidário e íntegro dos cubanos pintados nas paredes de prédios decadentes em cujas esquinas meninas com quatorze ou quinze anos expunham seus corpos para turistas europeus famintos de sexo com menores de idade, e dentro de cujos velhos e despojados aposentos amiúde contrabandeavam-se charutos, rum e outros produtos ou “vendiam-se” e estrangeiros filhas ou irmãs para conseguir comer aquele mês, aquela semana ou até mesmo por aquele dia – à mais ferrenha vigilância da população.

À raiz dessas experiências, não só abandonei minhas antigas romantizações que projetavam sobre a realidade da ilha desejos, utopias e ilusões pessoais, mas adquiri uma consciência clara, que mantenho até hoje, de que nenhuma sociedade se transforma a partir de simples reajustes nas suas estruturas e relações econômico-políticas, muito menos se impostas à força. Nenhum “homem novo” se cria a partir de diretrizes vindas de cima para baixo: toda e qualquer mudança individual e coletiva na maneira como produzimos e interagimos com o real é um processo necessariamente e intrinsecamente global e dialógico que envolve a construção gradual e compartilhada de novas perspectivas cognitivas, afetivas, corporais, relacionais, a elaboração conjunta, baseada na reciprocidade de um mundo comum e nunca é inevitável e previsível, mas sempre inacabada, incerta e aberta ao inesperado e até ao (atualmente) impensável.

É inevitável: viajar, quando estamos abertos ao mundo e não encerrados em nossas prisões conceituais,  produz mudanças em nosso modo de pensar e de viver.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Entrando em 2012

Os movimentos de indignad@s que brotaram este ano e continuam florescendo nos mais diversos rincões do planeta nos gritam que algo está errado: na maneira como funciona a economia; na forma como são tomadas as decisões que dizem respeito a tod@s; na forma como nós humanos nos relacionamos entre nós e como interagimos com as demais espécies que constroem conosco o mundo que habitamos. Esses movimentos são sinais de que algo está em crise.

O ideograma chinês que traduz a palavra "crise", wei-ji, está composto por dois símbolos: o primeiro, wei, significa perigo; o segundo, ji, ponto de mutação. A crise é, portanto, uma oportunidade ímpar de transformação.

Que 2012 represente uma ocasião única de repensarmos e transformarmos a maneira como pensamos, falamos e agirmos; de revermos nossas concepções do supérfluo e do necessário; de compreender-nos a nós mesmo um pouco melhor; de pararmos para respirar, para refletir e para viver.

Feliz Ano Novo a tod@s!