segunda-feira, 7 de novembro de 2011

#OccupyWallStreet: sinal do (lento) despertar de uma nova consciência

Muito interessante o que emerge de uma pesquisa divulgada por Daniel Dantas Lemos, do Movimento dos Blogueiros Progressistas do Rio Grande do Norte (#BlogProgRN), no blog De olho no discurso. A pesquisa desmente completamente a representação prevalente do movimento de #indignados norte-americano como uma reação conjuntural à crise econômica por parte de uma suposta “juventude” (a maioria não são tão jovens assim) desempregada (a maioria dos ocupantes têm emprego fixo e renda média) e que não enxerga perspectivas de futuro, assim como a ideia de um movimento partidário (a grande maioria dos ocupantes não é de partido nenhum). À luz dessas informações, o movimento parece mais um sinal: o do despertar paulatino de uma nova consciência na população, insatisfeita não com a situação econômica do momento, mas com o funcionamento e a lógica do próprio sistema financeiro internacional e o sistema atual de representação democrática. É o sinal de que o sistema está desgastado e não responde mais aos anseios de participação das pessoas. Até onde este movimento vai levar é difícil dizer, mas indubitavelmente sinaliza que alguma coisa está mudando na consciência coletiva.

Reproduzo abaixo o post de Daniel Dantas:

Quem são os militantes do #OccupyWallStreet?

Uma pesquisa com cinco mil participantes desfez alguns mitos sobre os participantes da ocupação em Wall Street:

A absoluta maioria é de homens (61%) brancos (81,2%). Enquanto 44,5% são jovens de 25 a 44 anos, surpreende saber que 32% dos ocupantes têm mais que 45 anos. A maioria terminou um curso superior (60,7%) e são empregados em tempo integral (47%). Ou seja, nem são tão jovens e nem tantos são desempregados e desocupados. Aliás, apenas 12,3% estão desempregados e apenas 10% são estudantes em tempo integral. Quanto à renda, 46,5% ganham menos de US$ 25 mil dólares por ano. O mais surpreendente dos números, inclusive para aqueles que entendem ser esse um movimento partidário: 70,2% dos participantes se declaram apartidários ou independentes. Os democratas são 27,4% e há até republicanos entre os que protestam contra o sistema em Nova York (2,4%).

Fonte: http://blogdodanieldantas.blogspot.com

sábado, 5 de novembro de 2011

Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera

Como prometi ao público que participou do segundo encontro do projeto cultural Café com Cinema, que idealizei e coordeno na PotyLivros em Natal, compartilho algumas reflexões – despretensiosas e desordenadas, seguindo o fluxo das minhas sensações - sobre o filme que foi exibido nessa ocasião: Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera (Bom Yeoreum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom, 2003), do diretor sul-coreano Kim Ki-duk.

A esplêndida fotografia do longa-metragem e os amplos planos panorâmicos do lago e da floresta ao seu redor em diversos momentos do ano com as respectivas transformações da paisagem, que varia com o clima, me deram a impressão de querer despertar uma atenção mais refinada, uma visão absorta que silencie o mais possível os ruídos internos e, como em uma sessão de meditação, permita que as imagens, sons e acontecimentos que se sucedem na tela penetrem num espectador com a mente aquietada e, portanto, receptiva, predisposta à reconstruir suas percepções e representações.

Algumas imagens, a meu ver, funcionam como autênticos koans visuais, com o propósito de desarticular a percepção linear, lógica e disjuntiva do real que predomina no nosso dia a dia de homens e mulheres ocidentais urbanos e abrir caminho a outras possibilidades de experiência do mundo. Uma delas é, em minha percepção, a da porta sem paredes que separa o quarto de dormir do resto do templo construído no meio de um lago onde o mestre budista e seu jovem discípulo, os protagonistas da narrativa, vivem. A imagem da não-porta é um exercício vivo de sensibilidade que golpeia visualmente o espectador, instigando-o a redefinir sua visão compacta, fechada e estilhaçada da realidade. Parece sussurrar-nos no ouvido: será que as paredes que erguemos entre nós e o mundo não são tão sólidas como tendemos a percebê-las?

Mais evocativa ainda é, aos meus olhos, a imagem da porta que se ergue no vazio, à beira do lago, que desde a primeira cena do filme me sacudiu levando-me a repensar os meus conceitos de “dentro” e de “fora”, assim como a minha percepção de ser humano e natureza. As paredes que compartimentam a realidade, que a estilhaçam em pedaços - parecem perguntar estas imagens - serão reais ou apenas uma das possíveis maneiras em que a mente humana percebe o mundo? Esses belos koans imagéticos sugerem outras possibilidades de experienciarmos o real.

O longa é também uma riquíssima mina de reflexões sobre a condição humana. O jovem discípulo, na primavera da sua infância, por viver desde a mais tenra idade em estreita “proximidade” com o ambiente não-urbano e não-humano que o rodeia revela uma completa familiaridade com as demais espécies vivas (peixes, sapos, serpentes...), que não tem medo de pegar nas mãos, experienciando com elas um contato epidérmico, contrariamente à moça de origem urbana que mais tarde chegará ao templo, que sente repulsão por outras espécies como transparece em uma cena em que, brincando, o rapaz coloca um grilo no ombro dela. Mas, simultaneamente, o jovem faz aflorar sentimentos típicos do humano, como o desejo de infligir sofrimento pelo puro prazer de fazê-lo, que o leva a torturar pequenos animais e mostra o “eu” se estruturando na percepção do menino que começa a perceber-se como independente daqueles seres e capaz de manipulá-los pelo seu próprio deleite, sendo incapaz, portanto, de compreender ou sentir o sofrimento deles. É preciso que o mestre - ao estilo Zen, cujos ensinamentos são transmitidos essencialmente através da vivência – faça experienciar à criança o mesmo sofrimento que ela tinha infligido a um peixe, a um sapo e a uma serpente para que a percepção dela, desestruturada por esta experiência totalmente nova e inesperada, se reconfigure em direção à empatia com as espécies que tinha torturado, permitindo-lhe sentir sua dor e sofrer pelo que fez.

A pedra que o mestre coloca nas costas do menino, reproduzindo o que ele tinha feito com outras espécies, pode ser vivida – como foi observado de forma a meu ver muito pertinente durante a discussão do Café com Cinema - como uma poderosa metáfora das pedras que todos carregamos: nossos conceitos, nossos hábitos mentais e comportamentais, nossos desejos, nossas obsessões, nossos fantasmas, nossos medos, nossas neuroses, nossas representações... tudo o que, num fluxo contínuo e incessante, (re)produz o nosso “eu” prendendo-nos a determinados estilos de vida e formas de ver o mundo, naturalizando-os a impedindo-nos enxergar ou conceber outras possibilidades.

Se em breves momentos do filme, como na fase outonal da vida do discípulo, o diretor parece reproduzir a dicotomia conceitual entre homem e natureza presente na visão de mundo urbanizada contemporânea, como por exemplo nas palavras do mestre ao tomar conhecimento dos acontecimentos da vida urbana do ex-discípulo (“Não conhecia de antemão como é o mundo dos homens?”, como se este fosse distinto do mundo “natural”), ao longo do filme inteiro emerge uma percepção não dilacerada do mundo humano e o não-humano. À afirmação do mestre ao discípulo no verão da sua adolescência, ao saber da relação sexual que manteve com a moça que foi levada pela mãe ao templo para se curar, é significativa: “Aconteceu por si mesmo, é a natureza”. O mestre parece perceber o ser humano como parte integrante de um único processo de permanente reconstrução do real, que entende como “a natureza”. O afastamento do mundo urbano não implica numa separação perceptivo-conceitual entre a natureza e o homem, como as belíssimas metáforas das portas sem paredes sugerem, funcionando como um potentíssimo operador simbólicode reorganização do pensamento.

O desejo sexual, o apego que a reprodução deste desperta e todas suas possíveis conseqüências (“A luxúria desperta o desejo de possuir e isso desperta a intenção de matar”, diz o mestre ao jovem discípulo quando decide devolver a moça curada à cidade) são, nessa perspectiva, manifestações da mesma natureza que pode produzir tanto compaixão e empatia com todos os demais seres vivos, como apego, ciúme e violência.

Outro aspecto sobre o qual o longa me instigou a refletir é a ciclicidade da existência humana, que o filme metaforiza através das estações do ano e, ao fazê-lo, insere-a no caráter cíclico de tudo o que existe. Não visão taoísta que impregna a percepção do real de muitos povos asiáticos miscigenando-se com os ensinamentos budistas, a existência é simultaneamente cíclica e irrepetível. Apesar de determinados processos se repetirem a cada certo período, nunca emergem com uma idêntica configuração. Todos os anos aparece a primavera, mas nunca é a mesma primavera: esta primavera é única e diferente da de todos os anos passados e de todos os vindouros. Isto é, a reprodução não é antagônica à unicidade e o cíclico não é antagônico à mudança permanente: essas categorias, que a lógica identitária opõe, são na mentalidade oriental complementares. A ciclicidade da existência metaforizada pelo filme de Kim Ki-duk me parece revelar uma percepção do homem como apenas mais um fenômeno que participa do incessante (re)surgimento, sempre diferente mesmo na repetição de padrões, da natureza.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O país do presente

Como avança o Brasil! A Prefeitura de Natal assinou contratos de mais de dois milhões de reais para tapar buracos nas ruas da cidade e desde agosto a operação está parada pela falta de pagamento das construtoras contratadas, enquanto nós cidadãos continuamos ziguezagueando entre as crateras que assolam o chão que pisamos. Mais da metade de Natal não tem saneamento básico. A maioria das cidades não têm calçadas; não têm árvores; não têm bancos; seus parques estão invadidos pelo mato, o lixo e o crack; não têm pistas cicláveis. Os postos de saúde não têm algodão e seringas para aplicar injeções, não têm soro, não têm material para fazer curativos. Nos hospitais públicos pacientes que necessitam atendimento de urgência estão jogados nos corredores, abandonados; pessoas morrem nas filas de espera para entrar na UTI; enquanto isso, os planos de saúde roubam milhões todos os meses dos seus usuários e lhes negam de todas as formas possíveis o acesso a serviços em muitos casos essenciais, dos quais dependem a vida ou a morte. Os alunos de escolas públicas passam meses sem aulas porque os professores, com salários de fome e obrigados a trabalhar três expedientes para chegar a pouco menos de mil reais por mês, não têm alternativa a não ser fazer greves para reivindicar um mínimo de dignidade... E os habitantes da periferia, enquanto vão trabalhar por um salário mínimo espremidos em ônibus sucateados que não passam nunca, vivem abarrotados e por cujas passagens se gasta mais da metade do que se ganha, têm acesso a todas essas informações pelos seus smartphones comprados à prestação, o que nos torna a sexta economia do mundo e faz com que sejamos o país com o terceiro maior número de internautas do planeta.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O que é O Condor Errante

Se você tem interesse em discutir de forma aberta, livre e polifônica temáticas sociais, ambientais, políticas, filosóficas, psicológicas, existenciais, educacionais, comunicacionais, espirituais, artísticas (literárias, cinematográficas, etc.); acredita que diferentes áreas do conhecimento e diferentes saberes, olhares sobre o mundo e linguagem podem e devem dialogar, se entrelaçar e se miscigenar; está ligado(a) nas mídias sociais e as utiliza como espaço de encontro de idéias, experiências, emoções, mobilização coletiva e horizontal para melhorar o mundo, como lugar de promoção de novas práticas, novas maneiras de ver e de viver e como lugar de partilha; acredita que um outro mundo é possível, mas não inevitável e que a mudança é uma aposta cotidiana que começa em nosso pensamento e nosso modo de viver... Se você é assim, O Condor Errante é um blog que pode lhe interessar.

Idealizado e produzido pelo jornalista, pesquisador, pensador, educador, promotor cultural independente, ativista socioambiental e viajante empedernido Antonino Condorelli, italiano de nascimento e brasileiro/latino-americano de adoção e coração, o blog quer lhe incentivar a empreender junto ao seu autor vôos sem rumo pré-fixado, sem fronteiras, sem obrigações, sem amarras a qualquer tema ou abordagem da realidade pré-definida, mas enraizados no nosso mundo e na nossa condição humana mestiça, naquilo que todos compartilhamos, encarando os dramas e os interrogantes de nossa época com os pés fincados em uma política e uma ética planetárias.

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