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sábado, 15 de novembro de 2014

O Pequeno Homem das Montanhas - Dersu Uzala: Ecologia, Semiótica e Arte


Na próxima quinta-feira, 20 de novembro, vai ser lançado o meu ensaio O Pequeno Homem das Montanhas – Dersu Uzala: Ecologia, Semiótica e Arte, publicado pela Fortunella Casa Editrice. O lançamento acontece a partir das 19:00 na Livraria Nobel da Avenida Salgado Filho, em Natal.

Cena de Dersu Uzala, de Akira Kurosawa

O explorador, cartógrafo e escritor Vladimir Arseniev percorreu a taiga da região siberiana do Uçuri ao longo de mais de vinte anos de expedições. Numa delas, em 1902, conheceu o caçador nômade Dersu Uzala. Nasceu entre os dois uma profunda amizade, que o escritor reconstruiu no livro Dersu Uzala, publicado em 1923, em que se baseia o filme homônimo que Akira Kurosawa dirigiu em 1975.

Essa amizade nascida entre as montanhas simboliza o diálogo e a miscigenação possíveis entre cultura científica e outros saberes e métodos de aproximação ao real. É o que defendo em O Pequeno Homem das Montanhas, uma viagem transdisciplinar que - usando como operadores a narrativa literária de Arseniev e a cinematográfica de Kurosawa – se interroga sobre questões epistemológicas cruciais como as relações entre sujeitos humanos e ambientes não urbanos, o trinômio sujeito-objeto-representações, os conceitos de híbrido, de humano e não humano, de vivo e não vivo, de relação direta e mediada com o real.

Na minha visão, a vida e a obra de Arseniev encarnam a riqueza, a polifonia e a intrínseca mestiçagem de uma ciência não fechada, de uma ecologia dos conhecimentos que faz dialogar e hibrida certezas e incertezas, rigor e sensibilidade. A vida de Dersu, por sua vez, encarna um modo de ser, de conhecer e de viver que faz da instabilidade, da imponderabilidade, da incerteza, da mudança incessante o húmus para o florescimento de uma ética do cuidado e da solidariedade. Estilos de vida, ambos, cada vez mais ameaçados. Mas seu eco conseguiu chegar até nós e ainda podem instigar mudanças em nossos modos de ser, de conhecer e de viver.

sábado, 12 de novembro de 2011

Na natureza selvagem (Parte 2)

Em um post de algumas semanas atrás disse que queria compartilhar com meus leitores duas experiências de viagem e de mergulho em ambientes não-urbanos que deixaram fortes pegadas em minha forma de ver o mundo. Naquela ocasião, contei minha aventura no Parque Nacional da Terra do Fogo. Deixem-me agora narrar-lhes a segunda experiência que mais contribuiu para forjar minha obsessão cognitiva pelas relações entre homem e natureza não-humana.

Estava viajando de mochila pela Nicarágua, na América Central, e fui passar uns dias na Isla Zapatera, uma ilha completamente coberta de floresta tropical seca – vegetação típica da região do Pacífico mesoamericana – com apenas duas pequenas comunidades humanas, uma em cada uma de suas extremidades, compostas por casas isoladas esparsas entre as colinas e os bosques. É a segunda maior ilha do imenso Lago Cocibolca, o segundo maior das Américas, um autêntico mar interno separado por uma faixa de terra de apenas vinte quilômetros do Oceano Pacífico. Em outras eras geológicas era um braço de mar e, quando a terra o fechou tornando-o um gigantesco lago, os tubarões que ali permaneceram adaptaram-se ao novo ambiente, reproduziram-se e deram origem à única espécie no mundo de tubarão de água doce. Constelado de ilhas e ilhotas de origem vulcânica, na sua margem norte-ocidental o lago vê erguer-se a delicada silhueta do vulcão Mombacho, com quatro crateras ativas, inteiramente coberto por uma manto de bosque nuvoso berço de uma riquíssimas biodiversidade.

Deitada no meio do lago, com o vulto da enorme Isla de Ometepe – a maior ilha lacustre do mundo, com dois vulcões ativos em sua superfície – às costas e o suave e viçoso perfil do vulcão Mombacho à frente, a duas horas de lancha da cidade mais próxima, sem água encanada e luz elétrica, com pouquíssimos humanos em seu extenso território e totalmente imersa numa densa selva, de onde vez por outra despontam petróglifos pré-colombianos, a Isla Zapatera representava para mim uma esplêndida oportunidade de afastamento temporário do meu universo de referência, das formas urbanas de organização do espaço e do tempo.

Apesar de estar novamente associado a muitas próteses (protetor solar, boné legionário, lanterna, repelente em spray e em creme, anti-histamínicos orais, óculos de sol com grau, entre outros elementos), o primeiro impacto foi um autêntico soco na cara. Um calor úmido e pegajoso despertava-me uma vontade constante de tomar banho, mas tinha pouquíssima água à disposição. Insetos de todo tipo e tamanho pregavam em minha roupa e nas partes descobertas do meu corpo, incomodando-me e assustando-me. O calor insuportável dava muita sede, tinha pouca água mineral disponível e não confiava na água das casas dos nativos, por não ser filtrada. Não havia nada a fazer a não ser caminhar nos arredores do bosque ou sentar em frente ao lago e contemplar a paisagem, tendo como únicas luzes as da lua e dos vagalumes assim que escurecia (evitava usar a lanterna para não descarregar a bateria).

Na primeira noite dormida em uma cama de campanha completamente coberta por um mosquiteiro, que aumentava exponencialmente a sensação de calor tórrido daquele lugar, via escorpiões passeando debaixo da cama ao meu lado; marimbondos enormes rondando o mosquiteiro; vislumbrava vultos e silhuetas de espécies não reconhecidas; escutava sons não familiares na escuridão da cabana; às vezes, sentia vontade de me levantar para beber água ou urinar e tinha medo de fazê-lo, apesar de dispor de uma lanterna, por causa dos animais que vislumbrava na escuridão. Com isso tudo, pude perceber mais uma vez o quanto meu olhar sobre a realidade, minhas reações às circunstâncias externas, minhas emoções e pensamentos, meus desejos, minha maneira de viver e organizar o tempo, minha forma de experienciar o mundo estão impregnadas até a medula, levam a tatuagem dos ambientes urbanos nos quais cresci e sempre vivi. A partir do segundo dia, caminhando na selva para conhecer petróglifos da civilização chorotega, que vivia na costa pacífica da Nicarágua antes da conquista europeia e usava aquela ilha para cerimônias rituais, a presença de um guia local conseguiu modificar em parte minha estratégia de atenção.

A mudança contínua da paisagem; o incentivo constante do guia para prestar sempre atenção ao caminho e não pisar nos lugares errados; a incrível diversidade de espécies vegetais e animais que a cada momento, inesperadamente, surgiam e sumiam; a exigência de estar totalmente presente para não perder os passos do nativo; aquela multiplicidade de formas, cores, cheiros completamente novos para mim, me confrontando o tempo todo com o inesperado, me despertaram aos poucos uma atenção mais refinada e aguçada. Nos dias seguintes, o que em um primeiro momento tinha me incomodado e assustado não me deixava mais tão rígido e nervoso como no começo, pois minha atitude perante os acontecimentos, minha estratégia de interação com o mundo tinha sofrido certa mudança: a atenção cada vez mais sutil que, pouco a pouco, a exposição ao ambiente no qual estava mergulhado tinha despertado em mim, conseguiu também silenciar pelo menos em parte, por momentos, os ruídos internos que inicialmente me dominavam, muitos dos quais eram exatamente os mesmos que impregnaram minha experiência na Terra do Fogo.

A interação com guias locais e moradores do lugar, cujas atitudes com relação ao ambiente me serviam de modelo e constante incentivo a agir de outras formas – mesmo que conseguisse reproduzir as deles só em mínima parte, pois suas sensibilidades sensoriais eram bem diferentes da minha – e cuja presença me dava confiança, contribuiu de maneira significativa para essa minha leve mudança de estratégia, que só não foi mais profunda porque minha permanência na Isla Zapatera durou apenas alguns dias.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ciberecologia: podemos repensar nossa relação com o planeta numa perspectiva digital?

Conceitos como cibersociedade, cibercultura e ciberdemocracia se tornaram corriqueiros, pelo menos no pensamento acadêmico e no mundo digital. Ainda não ouvi falar, porém, em ciberecologia. Em um curso de pós-graduação lato sensu sobre mídias sociais que idealizei e coordeno em uma instituição de ensino superior de Natal, criei uma disciplina com esse nome lançando um desafio que uma amiga, a pesquisadora Ana Cecília Aragão, aceitou encarar: conceituarmos uma nova visão da relação – que, a meu ver, é só pode ser concebida como hibridação - entre sujeitos humanos e ambientes naturais não-urbanos, entre saberes não-científicos e artefatos tecnocientíficos e entre tecnologias digitais de comunicação e estilos de vida não-urbanos e não-tecnológicos. Antes de continuar, faço questão de ressaltar que não concebo de forma alguma os sujeitos humanos, as ambientes urbanos e não-urbanos, os estilos de vida tecnológicos e não-tecnológicos e as demais ideias citadas como entidades “puras”, estanques e rigidamente separadas, mas simples ferramentas conceituais para identificar meras tendências, posto que em minha percepção aparecem como teias complexas de fatores simbólico-materiais mutuamente imbricados e em permanente reconfiguração, o que impede qualquer cristalização, até mesmo do suposto domínio do “humano” (muito menos, portanto, do “urbano” e o “não-urbano”, o “tecnológico” e o “não-tecnológico”, o “científico” e o “não-científico”, impregnados uns nos outros).

Voltando ao desafio que pus, minha intenção é sugerir uma ruptura da dicotomia conceitual entre o “natural” e o “digital”, partindo da suposição de que este último não seja mais do que uma manifestação, uma emergência ou uma possível configuração (temporária e instável, como tudo o mais que existe) de possibilidades inscritas no real e, portanto, seja uma dimensão tão “natural” quanto qualquer outra esfera da nossa experiência. Sendo assim, ao pensarmos na relação entre sujeitos humanos e ambientes naturais não-urbanos em uma perspectiva digital evitaremos cair na fácil e um tanto cômoda oposição binária “tecnologia versus natureza” – posto que a tecnologia é natureza, é parte de seu incessante devir autorecriador – e poderemos enveredar para novas possibilidades, novas percepções, novos rumos de pensamento e de ação.

O termo ciberecologia – como cibersociedade e cibercultura – é, na verdade, redundante: as tecnologias digitais de comunicação, o ciberespaço participam naturalmente, inevitavelmente da ecologia de inter-retroações que redefine constantemente o mundo que habitamos e simultaneamente (re)construímos. Mas é, a meu ver, um instigante operador de pensamento. De diversas formas - através de dispositivos móveis cada vez mais acessíveis, centros informáticos implantados por organizações-não-governamentais ou instituições públicas, etc. - mídias digitais estão chegando a comunidades não-urbanas, muitas das quais às vezes não dominam o “alfabeto” da sociedade urbana ocidentalocêntrica (entendendo com essa expressão um conjunto de tendências cognitivas, formas de relação entre as pessoas e entre os humanos e os não-humanos e de organização socio-político-econômico-cultural que cristalizou os aspectos do pensamento e da ação humana fundamentados na lógica identitário-dedutiva de matriz aristotélica e na separação cartesiana entre sujeito e objeto, assumindo-os como as únicas formas legítima de conhecer e interagir com o mundo), mas são detentores de outros saberes, outras maneiras de perceber o real e organizar a experiência igualmente legítimas (embora a ciência clássica não lhes reconheça esse status cognitivo). Ao chegar nas matas, nos mangues, nas caatingas, nas florestas alagadas e ao hibridar-se com formas de ver e de interagir com o mundo diferentes das de onde emergiram – e que contribuiu para definir suas sintaxes operatórias – tais mídias (que são elas próprias híbridos material-simbólicos, teias de relações das quais participam as mais diversas temporalidades, interesses, desejos, anseios, fantasmas, ideologias, percepções do real, etc.) poderão deixar de ser operadas a partir de roteiros pré-definidos e, na interação de suas potencialidades e recursos com novas visões de mundo e novas maneiras de se relacionar com os humanos e os não-humanos, poderão gerar configurações geo-antropo-tecnológicas totalmente imprevisíveis.

O desafio que ponho é: e se, ao invés de pretendermos que todos acessem as tecnologias digitais de comunicação da mesma forma em nome do mito da “inclusão digital” (que é mais uma forma, embora talvez bem-intencionada, de reduzir todos os possíveis olhares sobre o mundo ao dominante), procurássemos olhar para outras maneiras de interagir com o planeta e tornássemos as mídias digitais parte dessas diferentes hibridações possíveis?

Quem disse que as mídias digitais induzam necessariamente à aceleração da existência e ao afastamento do mundo que percebemos como “natural” (mas só se não conseguirmos enxergar a natureza em nós mesmos e nos nossos artefatos, aqui e agora)? E se elas, hibridando-se com outros saberes e estilos de vida, pudessem contribuir para a desaceleração do que consideramos importante; para a valorização e preservação das demais espécies; para o decrescimento e uma nova cultura da sobriedade, do consumo consciente, da simplicidade voluntária; enfim, para uma reaproximação do homem ao planeta do qual é parte (e do qual nunca esteve separado, se não em sua mente)? É esse o desafio ético, político e epistemológico que pretendo enfrentar ao refletir e tentar conceituar uma perspectiva ecológica das mídias digitais, ou uma perspectiva digital da relação entre homem e natureza não-humana. Alguém para trilhar esse caminho junto?