Mostrando postagens com marcador correia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador correia. Mostrar todas as postagens

domingo, 16 de março de 2014

A tênue fronteira entre o chão e as entranhas

Foto: Antonino Condorelli (Terra do Fogo, 2006)

O último de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.

***********

Lentamente, um homem abriu os olhos. Flutuava num torvelinho indistinto de formas e cores. Aos poucos, foram-se delineando contornos mais nítidos. Sentiu que tinha acordado. Estava nu, no coração de uma mata. Altas árvores de copas frondosas fechavam o céu, criando um ambiente úmido e escuro. Uma miríade de árvores menores, plantas, flores de diversas cores e tamanhos, cipós entrelaçavam-se numa teia intricada e a primeira vista impenetrável, densa e grávida de vida. Tênues raios de sol infiltravam-se entre as frestas deixadas pela vegetação, reverberando-se nas infinitas formas da mata circunstante, confundindo a visão. Não soprava um hálito de vento, tudo parecia imóvel, mas o homem pressentia que tudo estava em movimento, um movimento incessante que assemelhava-se a uma dança estonteante. Da mais alta árvore ao mais fino fio de relva, nada estava imóvel.

Aconteceu inesperadamente, num dia gélido de começo de outono na extremidade austral do planeta, aquele rincão que alguns gostam de chamar os últimos confins da Terra, embora talvez os derradeiros confins do mundo sejam só os da nossa mente. Meses antes tinha deixado para trás – pelo menos, assim pensava - minhas amarguras e neuroses e, agarrada uma mochila, tinha começado a perambular sem rumo pelas veredas, amiúde desgarradas, da América do Sul.

Estava atravessando a pé o Parque Nacional Tierra del Fuego respirando a plenos pulmões o ar límpido daquela manhã, fascinado por uma imponente floresta de lengas e guindos, árvores fueguinas mergulhadas num emaranhado sub-bosque de arbustos espinhosos, e devido ao meu passo deliberadamente lento e pausado os demais caminhantes com quem tinha começado a trilha já estavam fora do alcance da minha vista. O dia tinha amanhecido sereno, mas no meio da manhã o céu escureceu repentinamente e logo após começou a nevar. Em poucos minutos, o caminho na minha frente e o bosque inteiro se tornaram um óleo sobre tela de inúmeras nuances de branco e de cinza.

Os colegas da escola me apelidavam Condor. Desde pequeno, sinto uma atração avassaladora por essa ave. Para os povos dos Andes Centrais, o condor é símbolo de liberdade. Talvez seja porque mora em picos inacessíveis, porque voa tão alto como quem se liberta das amarras, dos pertencimentos e apegos, porque seus voos o aproximam do sol, porque pode penetrar nas nuvens, se impregnar de vento, olhar a terra e os seres que a habitam desde uma altura de onde toda e qualquer fronteira revela inelutavelmente sua natureza ilusória. A primeira vez que tinha visto um condor ao vivo, porém, não tinha sido no céu, mas na terra, na estepe patagônica aos pés dos Andes da província de Santa Cruz, enquanto devorava a carcaça de um cordeiro. Aconteceu dias antes daquela manhã de outono. Foi desse jeito brutal que descobri que o condor, esta majestosa ave de inatingíveis voos, é também um abutre que se alimenta de carniça.

Avançava com dificuldade, afundando meus pés numa camada de neve cada vez mais espessa e na lama em que a terra debaixo dela tinha se transformado. O vento jogava rajadas de neve na minha cara cortando-a de frio, molhando e embaçando meus óculos e impedindo-me enxergar nitidamente o caminho. Meus músculos enrijeceram-se, sentia meu estômago despedaçar-se, acreditava que iria vomitar meu coração. Me senti só, uma solidão infinita como a daquele bosque indiferente, fria como aquela manhã que em poucos minutos tinha me jogado nas garras dos meus mais sádicos demônios.

Respirei fundo, pensei que só precisava continuar pelo caminho que estava percorrendo, que apesar da neve impedir enxergar muito longe havia apenas que seguir pela pista já aberta no meio do bosque e que em algum momento, mais cedo ou mais tarde, iria desembocar na estrada que me levaria até a saída do parque. Segui em frente, lutando ferozmente contra o fantasma que tentava me possuir e, inutilmente expulso da cabeça, se infiltrava sorrateiramente pelas frestas do meu intestino. Um fantasma que não tinha como afastar e me jogava na cara, a cada instante, o pesadelo de não ter forças suficientes para chegar até o fim, de me perder no meio da nevasca que poderia apagar a senda, de morrer de frio e fome antes de reencontrar o caminho. Só escutava o estridor do vento; se algum pássaro cantasse, se o sub-bosque produzisse sons que sugerissem a presença de algum animal nos arredores, se um galho se quebrasse não o perceberia.

Melodias envolventes entremeavam-se a alaridos estridentes, cantos politonais, acordes arrítmicos, agudos desafinados ou harmonicamente compassados que compunham uma sinfonia que embalava e sacudia, abraçava e chocalhava. Seres estranhos pululavam por todo lado, silenciosamente ou gemendo, produzindo cantigas, sussurros, sibilos, grunhidos e sons indecifráveis, buscando-se, pegando-se, batendo-se ou ignorando-se.

Seres alados de todos os tamanhos povoavam os galhos, tingindo-os com plumagens vibrantes ou confundindo-se com a vegetação, com bicos enormes e coloridos ou fininhos e discretos. Seres alongados, rastejantes, de peles de aparência viscosa de vez em quando apareciam entre as pedras ou pendurados nas árvores. Seres peludos, de manto levemente dourado ou cinza escuro com listras brancas, ou avermelhado com jubas escuras, com pernas, braços e mãos semelhantes aos humanos apareciam aqui e acolá entre os galhos e nos cipós, brincando, colhendo frutas ou simplesmente observando, curiosos, o homem. Miríades de pequenos seres de aparência preta ou avermelhada, de diferentes tamanhos, formando longas filas compactas ou em pequenos grupos atravessavam os chão, galgavam as pedras, subiam ou desciam pelos troncos das árvores, saindo de buracos na terra ou sendo por estes engolidos. Pequenos seres alados, das mais variadas cores e tamanhos, zuniam esporadicamente em seus ouvidos, grudavam-se em sua pele, picavam-no causando-lhe ardência e coceira, rondavam a seu redor ou simplesmente o ignoravam, ocupados em outros afazeres. Diminutos seres alados de asas coloridas, listradas ou pontilhadas com tonalidades ora vibrantes ora suaves, deslumbrantes ou apaziguantes pousavam de vez em quando em seu ombro ou esvoaçavam livres ao seu redor.

No princípio era o verbo, mas nada daquilo tinha nome. Percebeu que ele tampouco tinha um.

Como a neve espessa cobria muitas vezes os sinais do caminho, várias vezes me perdi, desemboquei em becos sem saída que davam para o boque fechado e tive que voltar nos meus passos até reencontrar o lugar a partir de onde tinha tomado a direção errada. De repente, lembrei do condor com o bico ensanguentado dilacerando as carnes de um cordeiro. Naquele instante, me senti umbilicalmente amarrado ao chão. Não importa quão longe tivesse querido e tentado fugir: o chão estava comigo, o carregava em minhas células. Mas a terra parecia tão distante, tão indiferente: estava lá, mas uma muralha imensa, intransponível a separava das minhas entranhas.

Continuando a caminhada, de algumas brechas entre as árvores vislumbrei o mar e umas ilhotas à distância. Percebi que estava costeando uma praia e, pouco depois, desemboquei nela. Na minha frente desenhava-se uma enseada rochosa cravada de arbustos, completamente coberta de neve, acariciada por um mar límpido, sereno, apesar da tormenta que o céu estava desabando na terra, de onde podiam avistar-se algumas ilhas do Canal de Beagle igualmente pintadas de branco. De repente, tão improvisamente como tinha começado, parou de nevar.

Estava encharcado, coberto de lama, cansado e ainda com alguns quilômetros de caminho pela frente, mas naquele momento, diante daquela visão inaudita para um filho dos trópicos, daquele abraço de neve e mar, nada disso me importava. Me sentei numa rocha, respirei serenamente o ar limpo daquela enseada, me deixei chicotear pelo vento que não mais me incomodava e, por não sei quanto tempo, apenas olhei e escutei. Estava só junto ao mar, às rochas, aos arbustos, ao vento, à neve e ao canto distante de alguns cormorões.

Nada daquilo tinha nome, nem ele mesmo. Mas ele nomeou. Nasceram animais, plantas, pássaros, insetos, répteis, rios e cachoeiras, folhas e rochas e, com elas, nasceu aquele homem.

Não sei quanto tempo passei lá, se adormeci ou fiquei acordado. Minha única lembrança é a visão de um homem nu no coração de uma mata úmida, longínqua daquela terra gélida onde me encontrava. Só sei que durante alguns instantes, depois de retomar a caminhada, a fronteira entre o chão e minhas entranhas me parecera mais tênue, quase invisível.

***********

Clique nos links abaixo para ler os outros dois contos do conjunto que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo.

O rascante sussurro da noite






quarta-feira, 5 de março de 2014

Certa história de amor (um sonho, quiçá)

Parte de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.

**********

Una mujer se ha perdido
conocer el delirio y el polvo,
se ha perdido esta bella locura,
su breve cintura debajo de mí.
Se ha perdido mi forma de amar,
se ha perdido mi huella en su mar.
   
Silvio Rodríguez


O lembro como se fosse ontem, sua voz que parecia nascer-lhe do olhar, seus olhos tão obscenamente intensos, seu cabelo que modulava a forma do vento.

No dia em que me suicidei, Havana resplandecia envolta no manto alaranjado do pôr do sol. A ressaca jogava notas melancólicas nas rochas tristes do Malecón e raros carros rasgavam a cortina de resignada apatia que envolvia o crepúsculo da cidade.

Me joguei no mar pensando em quando voltara a encontrar-te, poucas horas antes, numa tarde de inverno, em uma Madri acariciada por uma chuva sutil cujas gotas diminutas tingiam de cinza a vitrine daquele bar em Atocha onde tinha me refugiado.

Na hora de me jogar ao Atlântico me ocorreram o estrondo infernal das bombas, os edifícios de Madri destroçados, as crianças com os ouvidos tampados nos refúgios, as lágrimas das mães que encontravam seus filhos mortos debaixo dos escombros e aquele cinza escuro e denso que tinha engolido a cidade e nossos corpos.

Lembra da nossa touca, aquela patética espelunca perto da Glorieta de Embajadores onde vendias teu corpo? Quem diria que aquele lugar onde nos amamos pela primeira vez, eu miliciano estrangeiro ferido numa guerra que não era a minha, mas me pertencia, tu puta enamorada – assim, pelo menos, me fizestes acreditar – quase cinquenta anos depois seria pela segunda vez o berço do meu primeiro amor?

Nos reconhecemos logo, apesar de que tínhamos mudado muito. Permanecemos calados muito tempo, não sei quanto, teu olhar ausente, vagamente doce mergulhado numa xícara de café vazia, o meu perdido atrás de gotas fugidias que se perseguiam, fundiam e esvaeciam em efêmeras brincadeiras na vitrine do bar. Passamos minutos, minutos eternos que pareceram dias, sem trocar uma palavra. Te observava de soslaio, discretamente, tentando decifrar os leves movimentos dos teus dedos.

Quero te contar uma história, dissestes de repente, e então levantei o olhar e te fitei, ou talvez fitasse tua voz que media o ritmo do tempo naquele bar envolto num cinza escuro que lembrava a época escura em que nos tínhamos conhecido. Vivia um jovem numa terra distante, um jovem sem casa e sem nome, sem passado e sem futuro, um jovem que cruzava as ruas de uma cidade imensa, anônima quanto ele, batendo carteiras nas esquinas, fazendo malabares nos sinais, cheirando cola quando a fome apertava. Um dia, uma moça o viu pedindo esmolas num sinal e decidiu levá-lo para a sua casa, lhe deu comida e preparou uma cama onde pudesse descansar. Seu olhar enigmático, cativante, penetrou nas entranhas no rapaz, desnudando-as. Se apaixonaram, mas não podiam se amar, pois ela era filha de um deus, um deus poderoso, e o sangue divino não pode fundir-se com o dos mortais. O amor que não podia tornar-se carne, pele, arrepios e umidade jogou os dois no desespero. A moça, não aguentando tanto sofrimento, selou um pacto com o pai: tornou-se humana e pagou como preço a perda da imortalidade e do seu sexo. Agora era um homem, mas o rapaz não quis amar outro homem. Assim, também procurou os deuses e eles aceitaram transformá-lo em mulher. Os deuses, porém, exigiram-lhe em troca uma sina que aceitou carregar sem pestanejar, estava disposto a tudo para viver seu amor, mas cuja natureza não quiseram lhe antecipar. A moça, agora um homem, tinha fugido para terras longínquas pela dor de não ser amada. O moço, mulher, foi buscá-la naquelas terras, mas não a encontrou, e lá teve que pagar o pedágio que os deuses lhe predisseram.

Não importa se então não te encontrei, o que importa é que agora estás aqui, que possamos voltar a nos amar como cinquenta anos atrás, agora como então sou jovem e nunca possui uma mulher, não me olhe por favor, não tão intensamente, teu olhar me cega como aquela vez na avenida do Parco delle Cascine em Florença quando eu era mulher e puta escrava e você homem e me iluminou com os faróis do carro, teu olhar cega mais que aqueles faróis no meio da madrugada, será que vai me amar assim como me amou na guerra?, afinal você também era um puta, não sei, agora o único que quero é sentir teus lábios umedecendo-me, esfregar minha pele eriçada em teu corpo nu, voltar a saborear o aroma de teu púbis que lembra as ondas do Malecón estraçalhando-se nas rochas, teus mamilos que têm o sabor da terra, aquela terra que quando a pisava me parecia demasiado dura.

Percorrermos o Paseo del Prado imersos nas recordações de umas vidas que, embora não foram as nossas, nos tinham parecidos tais. Em Cibeles saquei a coragem para te dizer o quanto tinha te amado, ou pelo menos tinha acreditado amar-te debaixo das bombas. Talvez fosse o medo daqueles dias o que se apoderou de mim enquanto passeávamos por Recoletos, mas na Plaza de Colón resolvi finalmente te beijar. Era a primeira vez que beijava uma mulher, a segunda primeira vez da minha vida, e enquanto minha língua percorria as dobras remotas da tua língua, enquanto se impregnava das texturas e os sabores mais recônditos da tua boca, enquanto explorava a região entre teus lábios e tuas gengivas e meus lábios absorviam avidamente tua umidade, senti aquela mesma sensação de jangada arrastada pelas ondas que me invadiu no dia em que, com a mesma idade de então, te beijei num refúgio enquanto os aviões fascistas destroçavam Madri.

Lembra da patética espelunca perto da Glorieta de Embajadores onde eu vivia (quem sabe a mesma onde você tinha vivido cinquenta anos antes?), suas paredes descascadas a lembrar os prédios da Havana Velha, as rachaduras do teto de onde caiam gotas que pareciam roçar o silêncio, o frio que impregnava tudo e que acabou impregnando os nossos ossos? Não sei se foi lá onde nos amáramos pela primeira vez, o único que sei é que quando acordei você dormia no meu peito; porém, já não era suave e evanescente como a garoa daquela tarde de inverno em Madri, mas marmórea como a mulher cuja história tinha me contado horas antes, e o calor úmido do trópico esmagava o quarto e os nossos corpos.

Como foi, não lembro mais como descobri que o que você buscava não era o meu amor, mas cavalgar a ilusão de uma vida melhor, talvez seja esse o sentido do verbo jinetear que vocês usam tanto, devia tê-lo entendido desde o início, mas o que importa?, o que importa é que não sei se alguma vez me amastes... foi por isso que me matei.

Não me pergunte como posso estar aqui agora, sentando contigo na grama do Retiro, lembrando meu suicídio: não sei responder. Também não sei como pode ter ocorrido tudo em um dia.


Talvez seja verdade, talvez um devaneio, não sei, não quero saber. O que importa é que pelo menos uma vez na vida acreditei que você me amou, e se foi um sonho qual a diferença? Você mesma talvez seja um sonho... e quiçá eu também.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O rascante sussurro da noite - 4ª e Última Parte

Parte de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.

***********

Continuação…




O dia na universidade tinha sido esgotante, os olhos de Slatko se mantinham abertos à força. Acabava de descer na parada de casa e cruzar a esquina, uma viatura da polícia militar com as luzes apagadas se aproximou dele, um instante, só conseguiu enxergar dois vultos, duas fardas sem rosto, lembra que lhe faltou o ar, uma mão apertava-lhe a boca, outras mãos torceram-lhe os braços e o empurraram para dentro, o que está acontecendo?, sua vista embaçou-se, o mundo se tornou uma tela caótica de cores borradas e tons de preto, não sabia quanto tempo passou, não conseguia respirar, ar, por favor, quero ar, não entendia as perguntas, o que querem saber?, o que querem de mim?, a sacola de plástico o sufocava, os chutes e os golpes de cassetete nas costas e na cabeça o atordoavam, por quê?, por quê isso tudo?, não enxergava mais nada, queria dormir, o sono e a dor se fundiam em seu rosto, Carol observava o céu e uma inquietação informe lhe devorava o estomago, por quê o celular de Slatko estava desligado?, ar, ar por favor, como queria dormir, só isso, dormir, talvez aquilo tudo fosse um sonho.

Aquela foto… Carol sentiu uma mão invisível agarrar-lhe o pescoço e durante uns segundos achou que iria morrer sufocada. Aquela foto divulgada no jornal e compartilhada nas redes sociais. Slatko tinha visitado a ocupação um dia antes que acabasse levando comida para Carol, roupa limpa e notícias de María José, de quem a ex-sogra estava cuidando temporariamente. Um fotógrafo do diário de maior circulação da cidade o flagraram em meio a uma vintena de mascarados. A única pessoa com o rosto descoberto. María José estava dormindo, Carol correu no banheiro e jogou água gelada na cara, o ar estava voltando aos poucos, mas um frio improviso, que parecia nascer-lhe do peito, gelou seu rosto e em segundos se infiltrou nas dobras mais íntimas do seu corpo inteiro. O celular de Slatko estava desligado, sem motivo, e aquela foto… Ele precisa saber, pensou enquanto se agasalhava inutilmente daquele frio que provinha de suas próprias entranhas. Quando aparecer, precisa saber. Mas – o frio se tornou tão intenso que a paralisou – voltará a aparecer? Uma obsessão macabra penetrou em seus ossos desde o fundo de sua alma: seu pior pesadelo, que quase todo o dia há anos a atormentava, parecia estar se tornando presságio.

A quem denunciar o desaparecimento, se foi a própria polícia provavelmente quem o levou? O centro de direitos humanos, companheiros de velha data, os primeiros que a acolheram quando chegara a Natal e a ajudaram a reconstruir sua vida, sim, eles eram os únicos que poderiam fazer alguma coisa. Tremendo de frio, a pele estremecida por uma angústia inominável, agarrou seu celular. Antes de ligar, entrou numa rede social. #CadêSlatko O grito lhe brotou das vísceras, na esperança de que alguém, quem quer que fosse, o escutasse e compartilhasse.

De repente, viu. Não sabia quantas horas haviam passado, se estava sonhando ou desperto, o corpo cravado de hematomas, as feridas internas, a pele queimada, rasgada, nada disso importava, não sentia mais dor, mesmo enquanto seguravam sua cabeça num balde cheio d’água, não conseguia respirar, mas o que importava?, naquele instante, enquanto simulavam afoga-lo para que confessasse que tinha depredado a Câmara Municipal e delatasse os demais participantes da ocupação, naquele instante ele viu. Viu Miroslav, viu sua casa em Mostar, viu homens armados, viu o pai de Miroslav, sérvio-bósnio casado com uma muçulmana, viveram anos juntos, criaram juntos a filha do primeiro casamento dela com um bósnio-croata, se amavam, mas alguns diziam que aquilo era uma aberração, que a origem de todos os males dos sérvios da Bósnia era a convivência com os muçulmanos e os croatas, era preciso limpar a nação, começando pelas famílias, e as pessoas acreditavam. Viu Miroslav, aos quinze anos, apontando um revólver para a irmã, obrigando-a a se despir na frente de outros homens que observavam a cena encorajando-o, excitados, o viu ficar de pau duro, ele que nunca antes tinha transado, mas em cujas fantasias a primeira e até então única inspiração tinha sido a própria irmã, o viu violentá-la repetidamente na frente de dezenas de homens, o viu extasiar-se com seus gritos de pânico e horror, gozar com suas lágrimas e sofrimento, viu a irmã de Miroslav sendo estuprada por toda a milícia antes de ser amarrada a uma árvore e ter os genitais mutilados a facadas e finalmente, quase um ato de piedade, ser crivada de balas. Viu Miroslav atirar a queima-roupa em seu pai que não quis entregar sua esposa à milícia, traidor da causa sérvia. Viu a mãe de Miroslav estuprada por uma matilha de milicianos na frente dele e depois decapitada, a cabeça dela empalada junto a dezenas de outras, e viu Miroslav excitado, imbuído de violência e de ideais de pureza, o viu torturar, estuprar, assassinar dezenas, centenas de pessoas, sem culpa, às vezes com medo, com a convicção íntima, a certeza irremovível de que estava agindo pelo bem de seu povo. Viu relâmpagos, cortes, fragmentos esparsos do mosaico de uma adolescência, uma adolescência que o curso da história incentivara a abafar, na tentativa vã de erradica-la da consciência. Uma adolescência impronunciável, que não conseguia articular em palavras e assim parecia ter desvanecido da memória. Quando voluntários de uma ONG o tinham resgatado das ruas, em Bolonha, não lembrava seu nome nem como tinha chegado até lá. Não tinha documentos, era preciso começar do zero. Então se autobatizara Slatko, que em sérvio que dizer doce e é também o nome de uma compota que pode ser feita com frutas ou pétalas de rosa. Naquele instante, enquanto os descendentes dos capitães-do-mato o afogavam, ele viu.

Tinham passado poucas horas, mas #CadêSlatko já era um viral nas redes sociais e o telejornal do meio dia repercutira o desaparecimento de um suposto envolvido na ocupação da Câmara. Talvez tivesse sido isso a salvá-lo, ou talvez o fato dos sequestradores terem descoberto a tempo que era um professor universitário, um favelado ou um estudante da periferia com certeza não teriam tido a mesma sorte. Foi encontrado vivo, desmaiado e com sinais evidentes de tortura, à margem da BR na entrada da cidade.

Fugiram por alguns dias para uma casa de pescadores no topo de uma duna num viçoso rincão do litoral potiguar, onde o Rio Tubarão penetra docemente, qual amante delicado, na imensidão acolhedora do Atlântico e manguezais, praia, dunas e caatinga entrelaçam-se numa dança inebriante e imprevisível. Um céu límpido respingado de estrelas, o farfalhar das folhas dos mangues ao vento, o canto das ondas ao longe: a noite ia tecendo um leve sussurro ao redor do mundo, que se tornava estrídulo e rascante enquanto Carol lembrava, contando a Slatko o que achava que ele precisava saber.

Lorenzo, o primeiro homem com quem tinha compartilhado muito mais do que noites de gozo, a aguardava imóvel, o olhar inquieto, o que houve?, uma angústia indizível nascia-lhe do fundo da garganta, fazia anos que as Abuelas investigavam sua origem, a obsessão que o atormentava desde que descobrira que era filho de desaparecidos, e finalmente tinham descoberto a identidade de sua mãe, Carol não entendeu, Lorenzo deveria estar radiante, aguardava aquele momento há anos, por quê aquela angústia?, afinal quem era sua mãe? Florencia Menotti, uma estudante de Rosario desaparecida em julho de 1976. Carol sentiu seu corpo estilhaçar-se, como se um rio em cheia violenta tivesse transbordado de seu útero, despedaçando-a. Florencia Menotti, sua mãe, era também a mãe de Lorenzo, o homem com quem tinha concebido María José.


Encostou a cabeça no peito de Slatko, que acariciou seu cabelo. Cabelo macio, levemente ondulado, que parecia acompanhar o canto das cigarras daquela noite clara, de uma suavidade dilacerante. O cheiro delicado do cabelo de Carol apaziguou por uns instantes a ânsia informe que escorria em suas veias. Ela também precisa saber, pensou. Quis abrir a boca, mas deixou para lá. Não tinha certeza de qual vida tinha vivido realmente, a de Miroslav ou a de Slatko. Talvez nenhuma delas. O eco das ondas, desde a restinga, acalentava o ar enquanto a noite engolia seus vultos abraçados.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O rascante sussurro da noite - 3ª Parte

Parte de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.
__________

Continuação... (Clique aqui para ler a primeira e aqui para ler a segunda parte do conto).

Slatko se considerava um pacifista irredutível, um praticante convicto da não-violência. Acreditava que a violência só gerava violência, desencadeava mais repressão, afastava a simpatia da maioria das pessoas das causas dos movimentos sociais e não transformava nada, pois – sustentava - só o diálogo e a construção coletiva, dentro ou fora das instâncias de mediação constituídas, mas sempre respeitando o outro e enxergando nele humanidade, produziria transformações efetivas. Talvez acreditasse nisso tudo porque não seria capaz de machucar ninguém nem de destruir o que quer que fosse, assim pelo menos pensava.

Às vezes essa convicção sofria abalos inesperados, inexplicáveis. Anos antes, ainda casado, tinha tido um caso com uma garota que conhecera durante uma palestra ministrada na universidade. A moça, fingindo interessar-se em suas ideias, conseguira arrancar-lhe o número de celular e insinuara-se maliciosamente pelos interstícios de um casamento que estava ruindo, deixando-lhe vislumbrar, num jogo sensual de mostra e esconde, a possibilidade de emoções sexuais havia tempo esquecidas. Por fim, deixara-se enredar na teia costurada ao redor de seus desejos pela misteriosa garota, mas só depois de transar com ela pela primeira – e única – vez, decepcionado, só então percebera que tinha se tornado uma obsessão para ela. Quis cortar qualquer contato, mas era tarde. Driiiiiim, driiiiiim, driiiiiim, o celular tocava sem parar, driiiiiim, driiiiiim, driiiiiim, todo dia, a qualquer hora, driiiiiim, esse som se convertera em pesadelo, mantinha o celular desligado o dia inteiro, mas sua esposa começara a suspeitar, até o inevitável acontecer e Slatko não ter mais como esconder a traição que tinha perpetrado e a perseguição que estava sofrendo. Seu casamento afundara, sentira-se atirado numa solidão da qual pensava que nunca mais teria visto a cara. Na verdade estava só há muito tempo, seu casamento tinha acabado muito antes daquele caso, mas a consciência de não ter mais um corpo quente do seu lado, um cheiro em que mergulhar suas ansiedades, outra solidão onde se agarrar, outro abismo insondável em que se perder fora uma chicotada em seu rosto. Trocara o número de celular e se livrou da perseguição, mas cada vez que pensava naquela garota que estraçalhara a ilusão de sua vida de casado era invadido por uma pulsão irrefreável de destruição, um desejo selvagem de espanca-la, com brutalidade, de ver jorrar seu sangue, de escutar seus gritos desesperados por piedade, seus gemidos de dor e de medo. Em relâmpagos fugazes, que o espantavam, se surpreendia imaginando-a amarrada a um pedaço de pau, nua, enquanto ele a esbofeteava com violência, vendo seu rosto sangrar, e depois se via arrancando-lhe os mamilos a mordidas, enfiando-lhe o dedo na vagina até rasgar seus tecidos internos, e em seguida cortando seu clitóris com uma faca e enfiando-o, ensopado de sangue, na boca dela. Por ínfimos, assustadores instantes se percebia gozando, embriagando-se dum prazer desconcertante ao torturar aquela garota na imaginação. Mas, assim que esses relâmpagos surgiam, os afastava veementemente, os reprimia com a mesma violência que via desatar-se naquelas fantasias.

Ultimamente, surtos de violência imaginária vinham brotando com frequência em efêmeros devaneios acordado. Vivia em uma cidade concebida e organizada para automóveis, uma cidade em que pedestres e usuários de transporte coletivo como ele, aos olhos da maioria dos motorizados, ou seja, dos descendentes dos senhores de escravos e daqueles que se iludiam estar nesse seleto rol por andarem sobre quatro rodas, tinham mais ou menos o mesmo valor, e os mesmos direitos, de um cuspe na calçada, e estas, as calçadas, um bem tão escasso em Natal quanto a água no Sertão, o que obrigava todo dia os transeuntes a arriscarem a vida disputando tirinhas de espaço de ruas e avenidas com os carros, quando existiam eram amiúde usurpadas pelos veículos privados, como as terras indígenas o foram pelos “civilizadores”. Um estrondo infernal sacudia às vezes sua consciência em pleno dia, no trajeto até a parada do coletivo, e se via imaginando – e desejando com inusitada intensidade – a explosão dos carros indevidamente estacionados nas calçadas, se regozijava com a imagem da chama engolindo as ferragens, dos rostos dos donos invadidos pelo desespero, se embriagava com o delírio de arrancar de seus veículos os motoristas que não paravam nas faixas dos cruzamentos para deixar passar os pedestres e de esmagar seus rostos nos vidros das janelas de seus próprios carros, e toda vez que ficava meia hora, quarenta, cinquenta minutos aguardando sob um sol abrasador um ônibus que chegava cuspindo gente pelas janelas, às vezes nem parando e obrigando-o a aguardar mais ainda, cada vez que seus braços doíam pelos malabarismos que era obrigado a inventar para se segurar naqueles paus de arara urbanos, um ódio profundo, inaudito, emergia incontrolável da região mais longínqua de seu ser e desejava, em seu íntimo, cobrir o rosto e sair destroçando ônibus, tocar fogo neles e em suas garagens, arrancar catracas e jogá-las nas caras dos donos das máfias do transporte coletivo, contemporâneos traficantes negreiros, e de seus lacaios nos poderes municipais. Um ódio que durava segundos, às vezes minutos, e que lutava tenazmente para empurrar de volta no rincão obscuro de onde tinha fugido, deixando-o apavorado pelo que era capaz de pensar e sentir. Não, ele era um pacifista, um não-violento, um homem sensível e delicado que jamais praticaria nem compactuaria com qualquer violência, por quão justificada pudesse parecer-lhe.

Nas fotos da ocupação da Câmara divulgadas pela imprensa, Carol aparecia sempre com o rosto coberto. Não condenava as pichações e a depredação que uns companheiros de luta tinham feito antes de saírem do prédio, mas não tinha participado daqueles atos.


Continua...

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O rascante sussurro da noite - 2ª Parte

Parte de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.
__________

Continuação... Clique aqui para ler a primeira parte do conto.

Carol militava em movimentos sociais desde sua chegada a Natal, talvez à procura desse chão. Tinha nascido em Rosario, acreditava que na família de um empresário bem sucedido, acreditava até que as Abuelas de Plaza de Mayo lhe jogassem na cara, reforçada por documentos perturbadores, sua verdadeira origem: tinha nascido num centro de detenção clandestina durante a ditadura militar, entre uma sessão e outra de torturas à mãe dela, uma presa política que logo após seu nascimento fora assassinada e cujo cadáver feito desaparecer. Quanto ao pai biológico, nem as Abuelas tinham conseguido identificar sua identidade e paradeiro. Quis não acreditar, recusou o teste de DNA, entrou em depressão, a dúvida a dilacerava, acabou fazendo o teste que confirmou a verdade, pensou em se suicidar, fez terapia, rasgou as fotos de infância com seus pais adotivos, cúmplices dos generais cuja recompensa pelo apoio à repressão fora ela, fugiu de casa, viveu por um ano de favor em casas de militantes dos direitos humanos, à deriva, mudou-se para Buenos Aires e lá conheceu outro filho de desaparecidos, se apaixonou, teve uma menina, viveu feliz por cerca de um ano, mas a felicidade não tinha como durar, escondida nas malhas da tessitura do destino uma lâmina estava pronta para cortá-la, e a cortou, então decidiu abandonar seu país e construir uma vida completamente nova. Mudou de nome, pois soube pelas Abuelas que sua mãe queria chama-la Carolina, e assim desde então se fazia chamar. Na Argentina estudava direito, ia herdar a empresa do pai e se tornar uma respeitada empresária. Só a ideia, agora, lhe causava nojo e ânsia de vomito. Em Natal estudava artes, trabalhava em projetos de uma ONG de direitos humanos, estava envolvida em movimentos estudantis, tinha casado e descasado e cuidava sozinha de sua filha de cinco anos.

Slatko não lembrava quase nada da primeira parte da sua vida. Algum trauma, que desconhecia, tinha apagado quase todas as lembranças de sua infância na Bósnia e de sua adolescência durante a guerra civil. Sabia que era sérvio, mas nem mais falava sua língua materna. Seus pais, pelo que tinham lhe contado, tinham morrido no conflito. No último ano de guerra, conseguiu sair clandestinamente do país e se refugiou na Itália. Sabia que viveu nas ruas durante um tempo. Um projeto social o tinha tirado das calçadas e dos abrigos temporários, teve a oportunidade de terminar seus estudos, depois de ir para a universidade. Formou-se em sociologia, sobreviveu com empregos precários durante anos até conhecer uma advogada natalense que fez um curso na Itália, namoraram, foi com ela para Natal, casaram, descasaram alguns anos depois, ele revalidou seu diploma e passou a dar aulas em uma universidade privada.

Slatko conhecia a origem de Carol. Mas, mesmo depois de terem desvendado amplas regiões de suas respectivas intimidades, ela não tinha querido contar-lhe muito de seu passado, um passado que jazia acorrentado no porão mais remoto de sua alma, debatendo-se violentamente para libertar-se das amarras. Ainda assim, ostentava com orgulho para todo o mundo que era filha de uma desaparecida política, era a marca indelével de seu destino, um destino que não tinha escolhido, mas do qual, uma vez conhecido, não podia nem queria eximir-se.

Carol não sabia a história de Slatko, nem ele mesmo a lembrava.

Carol tinha participado de uma recente ocupação da Câmara de Vereadores. Na primeira tentativa, os ocupantes tinham sido expulsos com a violência habitual dos descendentes dos jagunços de senhores de engenhos: spray de pimenta na cara de estudantes desarmados, com os rostos descobertos, que estavam sentados no pátio do edifício discutindo uma pauta de reivindicação, cassetetes nas cabeças, pontapés, meninas puxadas pelos cabelos e outras manifestações do típico respeito das “forças da ordem” brasileiras pelos seus cidadãos, ou melhor, pelos seus cidadãos pobres, sobretudo quando ousam abrir a boca e se fazerem ouvir. A segunda vez o movimento conseguiu ocupar a Câmara e ficar acampado alguns dias. Antes que a ordem de reintegração de posse fosse executada os manifestantes tinham desocupado espontaneamente o prédio, mas o rastro de pichações e destruição que alguns deles tinham deixado para trás insuflou um desejo de vingança e de punição exemplar naqueles que desde as Capitanias Hereditárias se consideram donos da casa do povo. Um inquérito policial tinha sido aberto e Carol, que participara do acampamento, estava nervosa havia alguns dias. Os vereadores e a polícia declaravam para a televisão e os jornais que só seriam responsabilizados os manifestantes comprovadamente envolvidos em atos de depredação. Mas ela sabia que todos, indistintamente, seriam intimidados, ameaçados e perseguidos.

Slatko apoiava os protestos, mas discordava de quem cobria o rosto e de atos violentos. Tinha tido inflamadas discussões com Carol sobre estratégias de manifestação. Carol defendia a legitimidade da violência como forma reação dos oprimidos, de sacudida das mentes brancas, falocêntricas, heterocentradas e colonizadas, considerava a pichação um ato político e estético de ressignificação de objetos e lugares e cobrir o rosto era para ela um signo, muito mais do que um gesto de proteção: era o símbolo da desintegração do individualismo na ação coletiva, anônima, das massas. Mas, e isso ela não o admitia para si própria, era também a expressão de um medo incrustado em suas vísceras, um medo incontornável, atávico, tatuado em seu corpo desde o instante em que nascera.

Continua...

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O rascante sussurro da noite - 1ª Parte

Parte de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.

**********

Slatko repudiava toda forma de violência. Carol não rejeitava, eventualmente, ações políticas radicais e sempre saía às ruas com o rosto coberto, para se proteger do gás lacrimogênio e do spray de pimenta que nunca deixavam de temperar os protestos, dizia, com ou sem atos violentos por parte dos manifestantes, um reflexo condicionado herdado pelos policiais diretamente dos capitães-do-mato, mas também porque – embora não o reconhecesse para si mesma – tinha medo de ser reconhecida, vigiada, sequestrada no meio da madrugada, jogada em porões invisíveis, impossíveis de enxergar por estarem diante dos nossos olhos, um medo indizível, subcutâneo, que lhe trazia à mente cenas aterradoras cada vez que via um homem fardado, imagens de choques elétricos nos mamilos, pelos pubianos arrancados, afogamentos simulados, rádios tocando a um volume ensurdecedor, gritos encobertos, cenas povoadas por rostos desconhecidos, corpos empilhados em aviões, cadáveres se decompondo no fundo do mar, cenas que nunca tinha presenciado, nunca tinha vivido, mas pareciam escorrer em seu sangue, estavam entranhadas em seu estomago.
       
O dia se infiltrava pelas janelas do ônibus abarrotado fazendo deslizar os raios do sol da manhã entre corpos espremidos, diluindo-os numa mistura de suor e perfumes baratos. O vulto do Arena das Dunas em construção, indiferente, corria ao lado da janela e Slatko, segurando-se no encosto de um assento, navegava numa região indistinta entre o sonho e a lembrança, lutando contra o impulso de suas pálpebras, insensíveis aos apelos da conveniência, de se fecharem. Mais uma vez, não tinha conseguido dormir. Como quase toda noite, há meses, tinha acordado de madrugada com o coração explodindo-lhe na garganta, calafrios atravessando-lhe a coluna, as mãos tremendo, o ar abandonando-o, uns instantes apenas, mas suficientes para fazer-lhe perder completamente o sono e mergulhá-lo numa angústia indefinida, um remorso insondável, sem forma, sem motivo.

Não tinha dormido com Carol, embora mesmo ao lado dela muitas vezes não deixara de ficar nesse estado. Mas preferia não mostrar-se assim, não acordá-la, para não obriga-la a partilhar de outra angústia. Sabia que ela tinha seus pesadelos, mais do que suficientes para ofertar-lhe outros.

A batalha contra suas pálpebras, naquele ônibus que como todo dia reavivava a experiência dos navios negreiros, era inglória e durante alguns instantes não conseguiu vencê-las. Alguns segundos nos quais os poros de seu pau, roçado involuntariamente pelos seios de uma passageira sentada na cadeira em que estava se segurando, dilataram-se repentinamente deixando-se invadir pela mesma embriaguez nervosa de quando os dedos de Carol o acariciavam, de quando o agarrava com firmeza e cuidado para que não doesse, um cuidado que – ele sabia, mas nunca o admitiu para si mesmo nem para ela - só quem partilhava de um sofrimento comum podia entender.

Abriu os olhos percebendo-se em ereção, doendo esmagada pela cueca e as calças, e a dor o jogou de volta ao ônibus que estava prestes a chegar à sua parada. Lecionava em uma universidade particular há pouco mais de dois anos, nunca tinha se acostumado e pensava que nunca se acostumaria ao turno matutino.


Carol dizia que a pele de Slatko adquiria sabor e tonalidades em contato com sua língua. Por isso, deixava que a língua dela forjasse seu prazer como o cinzel de um escultor. Estavam juntos há quase três anos, estrangeiros cuja pátria de acolhida eram o peito um da outra. No começo fora umidade. Percorria o corpo nu de Carol vagarosamente, explorando suas dobras com os dedos, com as palmas das mãos, com a ponta da língua, detendo-se em seus rincões mais improváveis, à procura de seus cheiros mais remotos, de seus sabores mais ocultos. Gostava especialmente de roçar com seus lábios os lábios mais íntimos dela e de lambe-los logo após, de baixo para cima e de cima para baixo, inspirando as variações de aroma que iam despertando-se. Carol amava despir aos poucos o pau dele, umedecer com a ponta da língua o vale quente e úmido entre a glande e o prepúcio, percorrer com dedos brincalhões sua virilha, traçar mapas em seu ventre, seu peito e suas costas com seus mamilos túrgidos. Seus mamilos, um levemente menor que o outro, com nuances de textura e sabor que só ele conseguia perceber, até mesmo a cor deles diferia ligeiramente: cada mamilo tinha sua personalidade, única, espelho quiçá da alma inquieta e múltipla de que eram extensões.

Exploraram seus corpos durante meses, uma avidez desbravadora que após três anos de namoro tinha minguado, mas à medida que o ardor sexual ia arrefecendo a atração entre eles se fortalecia pela descoberta de afinidades – por vezes estrídulas – que os aproximaram cada vez mais. Eram muito diferentes, mas um laço visceral, cuja origem e natureza nenhum dos dois conseguia vislumbrar, parecia destinado a uni-los além de suas vontades. O fato é que estavam juntos há quase três anos e tinham-se tornado, um para a outra, o chão que ambos, durante muito tempo, tinham deixado de sentir sob seus pés.

Continua...