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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Um choro abafado do escuro (Conto) - 3ª e Última Parte


Para ler a primeira parte do conto, clique aqui - Para ler a segunda parte, clique aqui.

Ainda não tinha se acostumado e viver naquele lugar sem alma, que não reconhecia, e talvez nunca se acostumasse até o fim de sua vida. Mas foi ali onde - quem diria? - reconhecera depois de mais de quarenta anos um dos seus torturadores do DOI-CODI. Um velho de aparência jovial, atarracado, bonachão, a pele avermelhada pelo sol: ninguém diria, ao vê-lo sentado na mesa de uma cafeteria com sua esposa, que adorava jogar álcool nos olhos e nos ouvidos de jovens amarrados numa cadeira. Devia ter quase oitenta anos, o pouco cabelo que lhe restava totalmente branco, as rugas esculpindo impiedosamente em seu rosto a passagem do tempo, mas Emanoel o reconhecera imediatamente. Nunca esquecera aquele olhar incolor, distante, um dos primeiros com quem se deparara após ser sequestrado, um olhar burocrático que permanecia impassível enquanto praticava as mais abjetas atrocidades. Enquanto o observava, com o corpo sacudido pelos choques que aquele homem aplicava metodicamente em seus genitais, se perguntava se aquela impassibilidade não escondia um deleite selvagem, inominável. Tinha certeza daquilo: em seu íntimo só podia estar gozando; não havia outra explicação para todo aquele desatino.

Devia estar de férias com sua mulher e não reconhecera Emanoel. Tinha perguntado se podia pegar uma cadeira vazia na mesa onde o velho estava sentado, de propósito, só para saber se se lembrava dele, e o homem respondera sem o menor aceno de surpresa ou assombro. O olhara nos olhos, vira seu rosto e não o reconhecera. Mais de quarenta anos antes o tinha seviciado durante semanas a fio, todo dia, mas sequer lembrava o rosto dele! Quando o homem e a esposa saíram da cafeteria no shopping para turistas onde os tinha encontrado, que naqueles dias se tornara uma algazarra internacional multicolorida e excitada, os seguira discretamente até descobrir que estavam hospedados num flat em Ponta Negra. Passara alguns dias observando suas rotinas e se dera conta de que, todo final de tarde, enquanto a esposa ficava no apartamento para descansar, apanhava um táxi na porta do flat para ir caminhar à beira da praia.

Achava engaçado que o velho tivesse sido sequestrado no dia em que a seleção brasileira, pela qual ele ficara arrebatado quarenta e quatro anos antes num bar em Copacabana, sofrera sua maior derrota num gramado, perdendo por sete a um contra a Alemanha na semifinal da segunda Copa do Mundo jogada em casa. O jogo tinha atrasado a saída do velho para a praia e Emanoel estava a ponto de desistir, achando que naquele dia não iria mais caminhar, mas de repente o vira saindo do portão do flat e acenara do outro lado da rua para o taxista, um velho amigo que tinha aceitado ser cúmplice na operação. Estava cabisbaixo, atônito, visivelmente transtornado e Emanoel pensara que era a primeira vez que o via manifestar alguma emoção. O táxi, ao invés de se dirigir para a orla, dera uma volta ao quarteirão. Emanoel estava aguardando numa rua lateral e quando o veículo acostara ao seu lado abrira a porta e subira rapidamente. O velho não tivera tempo de reagir. Anunciara o sequestro, encapuzara a vítima e a obrigara a ficar abaixada, segurando sua cabeça. Lembrara-se das garras que o asfixiavam no carro sem placa onde fora sequestrado quarenta e quatro anos antes; uma mistura de álcool, incredulidade e medo arrebentando sua cabeça e estraçalhando as fagulhas de alegria que o haviam incendiado minutos antes. O que estaria sentindo, no que estaria pensando naquele exato momento aquele velho? Estaria igualmente perplexo e assustado? Com luvas nas mãos, pegara o celular do homem e o jogara pela janela para evitar que pudessem rastreá-lo. Levaram o velho para a garagem da casa de Emanoel, em Lagoa Nova, uma antiga morada que resistia acerrimamente à especulação vertical. Tinha colocado papéis de isolamento acústico em todas as paredes, sem mais preocupações.

se escutarem? que escutem, como escutavam os que moravam nos bairros onde nos flagelavam a qualquer hora do dia e da noite, nem se preocupavam em botar proteção acústica, bastava um rádio tocando alto e nossos gritos se perdiam no ar, todo o mundo escutava e não ouvia, nada daquilo existia, éramos e somos fantasmas, espectros assustadores a serem mantidos no limbo do esquecimento e a inexistência, porque se evocados podemos abalar as certezas dessas legiões de surdo-mudo-cegos que fingem não acreditar em nós... casas de tortura no coração de bairros “nobres”, que palavra ridícula para referir-se a essa escória, enquanto nos abrasavam, eletrocutavam e fustigavam pendurados a um pau eles tomavam café da manhã, liam o jornal, estudavam, trepavam, escondiam suas gravidezes e abortavam às escondidas, se maquiavam, compravam sapatos, traiam seus maridos e mulheres, tinham ciúmes, fingiam que se amavam, viviam suas vidas anestesiados da nossa presença... era impossível que não escutassem, apenas faziam de conta que nada estava acontecendo, como farão se escutarem qualquer coisa agora... são os mesmos, não mudaram, então que escutem...

uma semana com este velho preso numa cadeira, amarrado pelas mãos e pelos pés... toda manhã acordo com uma lembrança nova, perfeitamente nítida, de algumas das brutalidades que me infligiu quando tinha vinte anos... essa dor insustentável não se pode explicar, tentei inúmeras vezes, mas ninguém nunca entendeu realmente... todo dia acordo com vontade de reproduzir nele as torturas que me aplicara, uma a uma, com a mesma sistematicidade, mas quando encaro este velho flácido e debilitado algo me bloqueia... não sei o quê, um pudor íntimo quiçá... com esta idade não resistiria a um pau-de-arara, nem a choques... mais de quarenta anos atrás, ele não teria tido qualquer escrúpulo em pendurar um velho de quase oitenta anos se a ditadura o considerasse um inimigo, mas eu não, não consigo... o que está acontecendo? queimei cigarros em sua pele já ardida pelo sol do Nordeste, o enchi de socos e chutes, arranquei-lhe pelos do peito e do púbis durante uma semana e ainda não senti prazer nenhum, não sinto qualquer alegria em devolver a este homem uma parte mínima de tudo o que sofri em suas mãos... acreditava que iria me embevecer, mas não estou gozando, não me excito com seus gritos de dor... sequer sinto qualquer sentimento de dever cumprido, qualquer sensação de justiça... só consigo ter pena dele e de mim mesmo... diz que não sabe como foi assassinada Anaí e onde estão seus restos, passou anos no DOI-CODI e quer que eu engula... invejo esta sua impassibilidade: eu não conseguia mantê-la nos interrogatórios deles, ao vislumbrar a sala já estava tremendo, meus intestinos já entravam derretidos... e o pior é que parece sincero, não há resquício de mentira em seu olhar... será que não sabe mesmo? o que me enlouquece e atordoa é a obtusa, inarredável obstinação deste velho em negar seu ódio político, seu deleite perverso – tá, eu não consigo sentir nenhum, mas os da espécie dele sentem, eu sei! –e até mesmo iniciativa própria nas torturas que praticava contra a gente no DOI-CODI...

Cansado dessa teimosia, após sete dias de cativeiro Emanoel pegara uma lagartixa de uma das paredes de sua garagem, desamarrara as mãos do preso, o obrigou a segurar o bicho e lhe ordenara que o torturasse. Agora você está sob as minhas ordens: cumpra-as! Sem pestanejar, o velho arrancara com zelo o rabo da lagartixa, sem manifestar qualquer emoção a não ser cansaço, e em seguida, esticando o corpo do animal com as mãos e ajudando-se com os dentes, o despedaçara aos poucos com metódico rigor, cortando-lhe cada uma das patas e por último, enquanto estava ainda vivo contorcendo-se em agonia, a cabeça. Emanoel saíra e voltara para a garagem com um penico cheio das fezes do próprio velho daquela manhã. O colocara nos joelhos do preso e ordenara: agora come tua merda, é uma ordem! O velho recusara-se. Come tua merda! O velho ficara impassível. Come tua merda, porra! Deu-lhe um soco na cara, que começara a sangrar, mas o velho continuara sem obedecer. Emanoel, então, agarrara sua cabeça e a enfiara no penico cheio de bosta.

Esquartejar vivo um ser que sente dor o faz sem pestanejar, mas para comer tua merda a recusa é possível?

O velho tinha vomitado e estava chorando, tentando disfarçar na semiescuridão. Emanoel se espelhou naquele choro silencioso, abafado. Naquele momento, renunciou a querer entender, se é que aquilo que o atormentava havia mais de quarenta anos podia ser entendido, e também sentiu vontade de chorar.

A televisão noticiava todo dia o desaparecimento de um turista carioca de férias em Natal, um militar aposentado, e a polícia estava investigando o que acontecera. Naquele mesmo dia, iriam encontra-lo desacordado num terreno baldio. Algo lhe dizia que o velho não o denunciaria. Se estivesse enganado, que diferença fazia a essa altura da vida?

Emanoel saiu para buscar uma bacia de água e um pano para limpar a cara do velho. Assim que a porta da garagem ficou para trás, não conseguiu reter as lágrimas.

Imagem: Cena do filme Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton (Brasil, 2007).

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Um choro abafado no escuro (Conto) - 2ª Parte


Para ler a primeira parte do conto, clique aqui.

Quando a prenderam, seu menino Carlos, que ainda não tinha dois anos, estava com ela. Planejava leva-lo para a casa da avó, no Nordeste, mas não se sentia segura em pegar um ônibus que cruzaria o país inteiro, muito menos um avião sabendo que seu nome poderia estar nas listas de terroristas procurados pela segurança nacional. Achava engraçado: estudantes que se reuniam para ler Marx, Gramsci, Lukács e refletir sobre a política do país, organizavam manifestações e performances, escutavam música de protesto e o mais perigoso que faziam era vez por outra pichar umas paredes eram perigosos terroristas. Mas Emanoel tinha sido preso uns meses antes e o nome dela poderia estar na lista dos procurados, não podia se arriscar. Alguns companheiros do movimento estudantil tinham enveredado para a luta armada, a repressão estava caindo em cima de quem quer que os conhecesse e ela com certeza estava na mira. Não estava acostumada com a clandestinidade, mas conhecia quem podia ajuda-la a falsificar sua identidade para viajar com segurança. Por enquanto, Carlos estava com ela. Até quando, depois de arrombarem a porta da casa da amiga, invadi-la e revirá-la por completo a encontraram num quarto secundário, pequeno e semiescondido com a criança nos braços e o menino começara a gritar desesperadamente. Emanoel nunca soube exatamente o que acontecera aquela noite. Companheiros que estiveram presos com Anaí tinham lhe contado que um dos sequestradores, incomodado com o choro da criança, teria lhe dado uma coronhada de fuzil na cabeça. A única certeza era que seu menino de menos de dois anos tinha morrido naquela mesma noite num hospital da serra fluminense, onde a amiga de Anaí o levara depois do sequestro da mãe, e o laudo médico apontava “traumatismo craniano”, sem mais detalhes. Emanoel soubera da morte de seu filho muitas semanas mais tarde, quando estava no presídio, e só pôde ir para o hospital onde Carlos morrera quinze anos depois, quando regressara ao Brasil após um longo exílio. Tivera acesso ao laudo, mas o médico que o redigira e que tinha atendido o menino não trabalhava mais lá. Desistira de ir atrás dele, achava que não teria forças para encarar o que tinha acontecido com seu filho. Quando, quinze anos antes, no presídio, lhe falaram que Anaí tinha sido presa, estava desaparecida e Carlos tinha morrido só não caíra nas garras da loucura porque a contabilidade de cada sevícia mantinha viva sua lucidez, alimentando seu ódio. Com as entranhas despedaçadas o ódio era sua fonte de vida, a corda que o segurava toda vez que seu corpo e sua vontade ameaçavam ceder e jogá-lo no abismo da insânia. No exílio conseguira voltar a viver, conseguira voltar a amar, mas nunca mais quisera ser pai e, antes de voltar a ficar com qualquer mulher, fizera vasectomia.

Vira companheiros serem assassinados na sua frente ou não resistirem aos maus-tratos. Vira amigos morrerem eletrocutados, afogados, estrangulados ou em consequência de espancamentos. Lembrava com profusão de detalhes cada sessão de tortura: não havia um choque, uma pancada, uma queimadura, uma ferida que não estivesse tatuada, cravada a ferro e fogo em sua memória. Seu corpo era um mapa de tatuagens invisíveis, qualquer marca física do que vivera tinha sido apagada, mas continuava tudo vivo debaixo de sua pele.

me prenderam no dia em que o Brasil ganhou o tricampeonato mundial, quatro a um contra a Itália no Estádio Azteca da Cidade do México… não esqueci um minuto daquelas horas longas, pesadas, permeadas de angústia e entusiasmo… aquele bar em Copacabana afundado em verde-amarelo, bandeiras penduradas, camisas amarelas empapadas de suor frio, cerveja escorrendo em rios, amigos fumando nervosamente, meu coração literalmente rasgado: a paixão ou a consciência, quem venceria naquele dia? e Anaí que preferira assistir em casa porque Carlos era pequeno, será que tivera uma premonição do que aconteceria? ia ficar com eles, mas a galera me tentou insistentemente, todo o mundo ia estar lá, que ingenuidade achar que uma turma ligada ao movimento estudantil poderia assistir um jogo de futebol num lugar público, mas o que esperar de uns garotos de pouco mais de vinte anos, não sabíamos nada da vida, apesar de alguns de nós já serem pais éramos moleques, aprendizes de gente… sabíamos do AI-5, mas que perigo representávamos? o único que fizéramos até então eram reuniões de leitura e discussão num grupo amador de estudos marxistas, umas performances semi-improvisadas, participar em duas ou três manifestações, o que a ditadura tinha a temer de nós? que babacas! o coração explodia em minha garganta, uma parte de mim queria que aqueles surdo-cegos embrulhados de verde-amarelo recebessem uma brutal paulada na cara, que se sentissem como um viciado quando acaba a droga e ao olhar-se no espelho percebe o lixo sórdido que se tornou, mas a cada lance da seleção a parte de mim que restava saltava da cadeira em ânsia e em delírio… crepitei de arrebatamento ao gol de Pelé, chafurdei na aflição após o empate de Boninsegna, me estremeci com o gol de Jairzinho, respirei aliviado e chorei de felicidade com os gols de Gerson e Carlos Alberto Torres… lembro de cada abraço, amigos, desconhecidos, homens, mulheres, travestis, todos vibráramos em uníssono, nossos suores se miscigenando, as lágrimas de uns molhando os rostos dos outros… o álcool ainda se misturava ao júbilo em minhas veias quando saia do bar com uma mão no ombro de um amigo e na outra uma garrafa de cerveja, iria buscar um orelhão para ligar para Anaí, foram instantes, um carro sem placa parou ao nosso lado, dois energúmenos saíram e nos empurraram para dentro, um torno invisível me sufocava, pancadas, dor de cabeça, uma sensação de incredulidade, uma névoa invadindo meus olhos, o mundo tornando-se um rascunho borrado, depois disso não lembro mais nada, só que acordei me afogando, uma mão segurando minha cabeça num balde cheio d’água… naquele momento lembrei de minha mãe, suas lágrimas ao despedir-se na minha partida para o Rio, aquele abraço demorado, segundos intermináveis, um abraço que permaneceu até hoje em minhas entranhas, ia fazer faculdade, três anos, três anos desde que saíra de Natal, da minha infância, lembrei-me disso naquele instante e senti uma saudade despedaçante…

Natal, cujas curvas de areia, em suas lembranças encharcadas de saudade, dançavam sinuosas ao compasso das ondas deixando entrever pelas frestas de sua mata segredos indizíveis, excitantes enigmas de uma amante altiva que tinha virado as costas ao seu rio e os seus mangues e se embatucava de maquiagem para disfarçar sua miséria. Remoto rincão na esquina do vento, ereção oriental de um continente desgarrado (quiçá apontando para a vulva inatingível, esquecida da Mãe África… às vezes, pelo menos, assim pensava), veia sangrante de uma terra infeliz, eternamente dilacerada entre resignação teimosa e irredutível rebeldia. Em sua memória, não passava da lânguida e por vezes melancólica parceira de momentos felizes de uma inocência inexoravelmente perdida, se é que alguma vez realmente existira. Tinha voltado a viver em sua cidade natal vinte anos depois de tê-la abandonado, quinze depois de ser jogado no exílio, e quando chegara quase nada tinha mudado, embora não se parecesse mais à amante gentil e sensual de suas saudades, mas ao curral provinciano escravizado por oligarquias que no íntimo sempre soubera que era, mas cuja verdadeira natureza recusava-se a evocar. Nos quase trinta anos que se seguiram ao seu regresso a vira crescer, caótica e descontrolada, devorando suas orlas e encostas, assassinando suas matas, estuprando seu solo de onde rebentavam a cada dia, como horríveis excrescências, novos arranha-céus. A vira tornar-se um pátio de vizinhos grotescamente disfarçado de metrópole, seus lugares públicos largados às traças ou privatizados, shoppings tomando o lugar das praças: vira sua aldeia natal tornar-se um amontoado esparso de condomínios de luxo e barracos mergulhados no vazio de ruas sem calçadas, sem árvores, sem vida, meras pistas de trânsito.

Continua…

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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Um choro abafado no escuro (Conto) - 1ª Parte

Foto: Evandro Teixeira

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Esse samba no escuro.

Chico Buarque

Esquartejar sim, comer tua merda não?

por que caralho o fiz, por que peguei nessa lagartixa? será que mereço este suplício? não tinha nada contra eles, nada! nunca matei nenhum! e para que, me pergunto? para, agora que sou um velho, estar com a cara enfiada na bosta e neste vômito que não consegui segurar? nunca fui um santo, mas sempre cumpri meu dever, nunca trai ninguém… de muitos tinha até pena, eram uns meninos… quando Marta fez dezoito anos e lhe dei os parabéns, não sei por que, mas enxerguei de repente uma daquelas garotas, alguma coisa em seu olhar, uma faísca, uma expectativa ansiosa, não sei bem, vi uma daquelas garotas e senti estilhaços em minha garganta, foi só por alguns segundos, mas nunca o esqueci… por que lembrei de Marta, porra? isso me estraçalha… muito mais do que esta merda na cara, este cheiro nauseabundo, das pancadas, do que estar acorrentado neste porão, nesta escuridão, jogado sei lá onde, num buraco qualquer do inferno… será que mereci o inferno? eu, que sempre fui um homem íntegro… não sinto remorso, diz ele, e deveria? não sei o que aconteceu com aquela moça, não sei o que aconteceu com nenhum deles, para que remexer com o passado? meu deus, pare com isso, me solte, me jogue num terreno baldio e deixe que me encontrem, nunca te odiei, fiz aquilo que me mandavam, sou uma pessoa de bem… Marta deve estar devastada com meu sumiço, e Lourdes… deus queira que não tenha tido um infarto… meu deus, faz que seja um pesadelo… será que eles sentiam o mesmo? será que também rezavam em silêncio?… talvez pensassem em suas famílias, na angústia que devia torturar os seus pais… sempre fui forte, sou homem, mas a porra dessas lágrimas, puta que pariu, não desçam cacete! não quero chorar… quer saber? vão se foder! querem rolar? que rolem… só ele está me vendo… será que vai limpar essa porcaria na minha cara?

Emanoel observava, imóvel, o velho homem amarrado na cadeira. Tinha começado a chorar em silêncio como, décadas atrás, ele mesmo fizera tantas vezes. O deviam estar atravessando a mesma impotência, a mesma incredulidade, o mesmo medo. Quem sabe o mesmo senso de ridículo que tudo aquilo, então, lhe despertava. Se é que este tipo de gente sente alguma coisa, pensou. Muitas vezes, pendurado no pau-de-arara, enquanto cada pancada ressoava em suas vísceras, se perguntara o que estariam sentindo, no que estariam pensando eles. Não raro lhe parecera vislumbrar em seu olhar lampejos de gozo. Por isso o enfurecia e desnorteava a teimosia daquele velho em negar qualquer prazer, até mesmo qualquer ódio.

não, filho de rapariga, vocês nos odiavam porque encarnávamos a resistência dos oprimidos pelo regime genocida de que você e sua corja eram lacaios, porque éramos a consciência suja dos donos da Casa Grande de que vocês são cães da guarda, vocês, capitães-do-mato que executam o trabalho sujo para deixar as mãos de seus patrões imaculadas… vocês se embriagavam de nossos gritos, se inebriavam de nosso sofrimento, tremiam de orgasmo toda vez que nossos corpos se contorciam em espasmos, atravessados pelos choques que aplicavam com meticuloso cuidado em nossos testículos, em nossas línguas, em nosso anus, nos mamilos e nas vaginas de nossas companheiras…. era um desfrute insano, um prazer rastejante, uma euforia obscena…

cumpria ordens, diz…. não nos odiava, nem se envolvia com política, apenas cumpria ordens… apagavam cigarros em nossa pele, enfiavam nossas cabeças em baldes de mijo, nos abrasavam com óleo ardente, eletrocutavam nossos genitais e apenas cumpriam ordens… e aquelas centelhas em seus olhares, aquela excitação mal disfarçada a cada gemido nosso de dor? não, os gringos talvez até tivessem lhes ensinado que era necessário ficar frios e impassíveis, que estavam apenas cumprindo seu dever, mas no fundo de suas almas vocês trepidavam, se regozijavam com nossas sevícias, eu sei, eu vi, eu senti, senti em cada soco, em cada paulada, em cada choque, em cada aperto da minha garganta seu deleite pornográfico…

Emanoel não esquecera um único golpe, um único tremor, uma única lágrima de todas as que derramara naqueles dois intermináveis anos no DOI-CODI, onde passara as primeiras semanas, e em Bangu, onde ficara até que o exilassem em um “pacote” de presos políticos negociado por uma embaixada estrangeira. Outros tentaram esquecer, procuraram um sentido, qualquer coisa a que agarrar-se para recomeçar a viver, para não mergulhar num abismo sem fundo de ansiedade, desespero e absurdo. Alguns construíram novas militâncias, se aferraram a novas causas ou retomaram, à distância, a luta contra o regime para que tudo o que tinham sofrido se encaixasse num desenho coerente. Outros, ainda, não aguentaram e se suicidaram. Ele recomeçara a viver, recomeçara a militar, até recomeçara a amar, mesmo que tivessem lhe tirado Anaí e nunca tivesse conseguido saber em que circunstâncias fora assassinada e o paradeiro de seus restos mortais. Muitos anos mais tarde, amigos que tinham sido torturados com ela e que tinham sobrevivido lhe contaram que a prenderam alguns meses depois dele, de madrugada, na casa de uma amiga numa aldeia na serra onde achava que estaria segura. Soube que chegara à sede do batalhão onde funcionava o centro de tortura de camisola e que, na mesma noite, fora estuprada por pelo menos cinco homens. Depois de sabe-lo, Emanoel acordara todo dia durante anos em plena madrugada, um suor gélido escorrendo-lhe pelas costas, náusea, tremores e a sensação de que um garrote invisível ia esmagando-lhe lentamente a garganta. Acreditava que iria morrer sufocado, tinha que escancarar a janela e só aos poucos conseguia voltar a respirar. Nunca explicara à esposa os motivos. Fora para psiquiatras, fizera terapias, mas nunca revelara para ninguém que durante anos, toda noite, tinha sonhado com Anaí, sua jamais esquecida paixão da juventude, a mãe do único filho que tivera em sua vida, e sonhava nela amarrada em pé, uma corrente em cada pulso e cada tornozelo, nua, sua pele acobreada refletindo intermitentemente feixes de uma luz oca e seu corpo frágil, esguio tremendo enquanto sombras silenciosas de uma turba sem rosto se aproximavam dela e a lambiam inteira, uivando, e depois a invadiam selvagemente um por um, extasiando-se com seu gritos.

Continua…

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domingo, 25 de maio de 2014

Esboços e retalhos



Fonte da imagem:

Um acampamento de indignados que, aos poucos, se torna um quilombo urbano que acolhe os fugitivos, desajustados e marginais de uma sufocante Capitania Hereditária contemporânea na esquina da terra do pau-brasil. Uma transsexual à obstinada procura de alguém que lhe arrancaram brutalmente. O encontro cáustico de um ex-torturado da ditadura militar com um de seus torturadores. Uma viajem psicodélica ao quinto dos infernos, sob a guia de um contador de histórias morto, e um desconcertante encontro com o drama do casal Paula e Francisca. A viagem sem rumo de uma filha de desaparecidos argentinos pela Patagônia, à procura de um sentido após um trauma que desgarrou sua vida. A chegada à cidade de uma menina fugida do Sertão, seu perambular a esmo pelas ruas da metrópole e a procura apaixonada de um caminho para a África. Uma blogueira que descobriu verdades incômodas. Um imigrante clandestino à procura de um ancoradouro. A fuga mata adentro de um jovem para escapar da polícia. Um estrangeiro em luta com seu passado. A roda viva pairando acima de todos, com sua violência inexorável, ameaçando varrer tudo pra lá.

Dar vida a tudo isso? Vários contos? Costurar esses fragmentos num romance, lançando-me pela primeira vez nesta aventura? Ou, simplesmente, deixar tudo para lá?

domingo, 16 de março de 2014

A tênue fronteira entre o chão e as entranhas

Foto: Antonino Condorelli (Terra do Fogo, 2006)

O último de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.

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Lentamente, um homem abriu os olhos. Flutuava num torvelinho indistinto de formas e cores. Aos poucos, foram-se delineando contornos mais nítidos. Sentiu que tinha acordado. Estava nu, no coração de uma mata. Altas árvores de copas frondosas fechavam o céu, criando um ambiente úmido e escuro. Uma miríade de árvores menores, plantas, flores de diversas cores e tamanhos, cipós entrelaçavam-se numa teia intricada e a primeira vista impenetrável, densa e grávida de vida. Tênues raios de sol infiltravam-se entre as frestas deixadas pela vegetação, reverberando-se nas infinitas formas da mata circunstante, confundindo a visão. Não soprava um hálito de vento, tudo parecia imóvel, mas o homem pressentia que tudo estava em movimento, um movimento incessante que assemelhava-se a uma dança estonteante. Da mais alta árvore ao mais fino fio de relva, nada estava imóvel.

Aconteceu inesperadamente, num dia gélido de começo de outono na extremidade austral do planeta, aquele rincão que alguns gostam de chamar os últimos confins da Terra, embora talvez os derradeiros confins do mundo sejam só os da nossa mente. Meses antes tinha deixado para trás – pelo menos, assim pensava - minhas amarguras e neuroses e, agarrada uma mochila, tinha começado a perambular sem rumo pelas veredas, amiúde desgarradas, da América do Sul.

Estava atravessando a pé o Parque Nacional Tierra del Fuego respirando a plenos pulmões o ar límpido daquela manhã, fascinado por uma imponente floresta de lengas e guindos, árvores fueguinas mergulhadas num emaranhado sub-bosque de arbustos espinhosos, e devido ao meu passo deliberadamente lento e pausado os demais caminhantes com quem tinha começado a trilha já estavam fora do alcance da minha vista. O dia tinha amanhecido sereno, mas no meio da manhã o céu escureceu repentinamente e logo após começou a nevar. Em poucos minutos, o caminho na minha frente e o bosque inteiro se tornaram um óleo sobre tela de inúmeras nuances de branco e de cinza.

Os colegas da escola me apelidavam Condor. Desde pequeno, sinto uma atração avassaladora por essa ave. Para os povos dos Andes Centrais, o condor é símbolo de liberdade. Talvez seja porque mora em picos inacessíveis, porque voa tão alto como quem se liberta das amarras, dos pertencimentos e apegos, porque seus voos o aproximam do sol, porque pode penetrar nas nuvens, se impregnar de vento, olhar a terra e os seres que a habitam desde uma altura de onde toda e qualquer fronteira revela inelutavelmente sua natureza ilusória. A primeira vez que tinha visto um condor ao vivo, porém, não tinha sido no céu, mas na terra, na estepe patagônica aos pés dos Andes da província de Santa Cruz, enquanto devorava a carcaça de um cordeiro. Aconteceu dias antes daquela manhã de outono. Foi desse jeito brutal que descobri que o condor, esta majestosa ave de inatingíveis voos, é também um abutre que se alimenta de carniça.

Avançava com dificuldade, afundando meus pés numa camada de neve cada vez mais espessa e na lama em que a terra debaixo dela tinha se transformado. O vento jogava rajadas de neve na minha cara cortando-a de frio, molhando e embaçando meus óculos e impedindo-me enxergar nitidamente o caminho. Meus músculos enrijeceram-se, sentia meu estômago despedaçar-se, acreditava que iria vomitar meu coração. Me senti só, uma solidão infinita como a daquele bosque indiferente, fria como aquela manhã que em poucos minutos tinha me jogado nas garras dos meus mais sádicos demônios.

Respirei fundo, pensei que só precisava continuar pelo caminho que estava percorrendo, que apesar da neve impedir enxergar muito longe havia apenas que seguir pela pista já aberta no meio do bosque e que em algum momento, mais cedo ou mais tarde, iria desembocar na estrada que me levaria até a saída do parque. Segui em frente, lutando ferozmente contra o fantasma que tentava me possuir e, inutilmente expulso da cabeça, se infiltrava sorrateiramente pelas frestas do meu intestino. Um fantasma que não tinha como afastar e me jogava na cara, a cada instante, o pesadelo de não ter forças suficientes para chegar até o fim, de me perder no meio da nevasca que poderia apagar a senda, de morrer de frio e fome antes de reencontrar o caminho. Só escutava o estridor do vento; se algum pássaro cantasse, se o sub-bosque produzisse sons que sugerissem a presença de algum animal nos arredores, se um galho se quebrasse não o perceberia.

Melodias envolventes entremeavam-se a alaridos estridentes, cantos politonais, acordes arrítmicos, agudos desafinados ou harmonicamente compassados que compunham uma sinfonia que embalava e sacudia, abraçava e chocalhava. Seres estranhos pululavam por todo lado, silenciosamente ou gemendo, produzindo cantigas, sussurros, sibilos, grunhidos e sons indecifráveis, buscando-se, pegando-se, batendo-se ou ignorando-se.

Seres alados de todos os tamanhos povoavam os galhos, tingindo-os com plumagens vibrantes ou confundindo-se com a vegetação, com bicos enormes e coloridos ou fininhos e discretos. Seres alongados, rastejantes, de peles de aparência viscosa de vez em quando apareciam entre as pedras ou pendurados nas árvores. Seres peludos, de manto levemente dourado ou cinza escuro com listras brancas, ou avermelhado com jubas escuras, com pernas, braços e mãos semelhantes aos humanos apareciam aqui e acolá entre os galhos e nos cipós, brincando, colhendo frutas ou simplesmente observando, curiosos, o homem. Miríades de pequenos seres de aparência preta ou avermelhada, de diferentes tamanhos, formando longas filas compactas ou em pequenos grupos atravessavam os chão, galgavam as pedras, subiam ou desciam pelos troncos das árvores, saindo de buracos na terra ou sendo por estes engolidos. Pequenos seres alados, das mais variadas cores e tamanhos, zuniam esporadicamente em seus ouvidos, grudavam-se em sua pele, picavam-no causando-lhe ardência e coceira, rondavam a seu redor ou simplesmente o ignoravam, ocupados em outros afazeres. Diminutos seres alados de asas coloridas, listradas ou pontilhadas com tonalidades ora vibrantes ora suaves, deslumbrantes ou apaziguantes pousavam de vez em quando em seu ombro ou esvoaçavam livres ao seu redor.

No princípio era o verbo, mas nada daquilo tinha nome. Percebeu que ele tampouco tinha um.

Como a neve espessa cobria muitas vezes os sinais do caminho, várias vezes me perdi, desemboquei em becos sem saída que davam para o boque fechado e tive que voltar nos meus passos até reencontrar o lugar a partir de onde tinha tomado a direção errada. De repente, lembrei do condor com o bico ensanguentado dilacerando as carnes de um cordeiro. Naquele instante, me senti umbilicalmente amarrado ao chão. Não importa quão longe tivesse querido e tentado fugir: o chão estava comigo, o carregava em minhas células. Mas a terra parecia tão distante, tão indiferente: estava lá, mas uma muralha imensa, intransponível a separava das minhas entranhas.

Continuando a caminhada, de algumas brechas entre as árvores vislumbrei o mar e umas ilhotas à distância. Percebi que estava costeando uma praia e, pouco depois, desemboquei nela. Na minha frente desenhava-se uma enseada rochosa cravada de arbustos, completamente coberta de neve, acariciada por um mar límpido, sereno, apesar da tormenta que o céu estava desabando na terra, de onde podiam avistar-se algumas ilhas do Canal de Beagle igualmente pintadas de branco. De repente, tão improvisamente como tinha começado, parou de nevar.

Estava encharcado, coberto de lama, cansado e ainda com alguns quilômetros de caminho pela frente, mas naquele momento, diante daquela visão inaudita para um filho dos trópicos, daquele abraço de neve e mar, nada disso me importava. Me sentei numa rocha, respirei serenamente o ar limpo daquela enseada, me deixei chicotear pelo vento que não mais me incomodava e, por não sei quanto tempo, apenas olhei e escutei. Estava só junto ao mar, às rochas, aos arbustos, ao vento, à neve e ao canto distante de alguns cormorões.

Nada daquilo tinha nome, nem ele mesmo. Mas ele nomeou. Nasceram animais, plantas, pássaros, insetos, répteis, rios e cachoeiras, folhas e rochas e, com elas, nasceu aquele homem.

Não sei quanto tempo passei lá, se adormeci ou fiquei acordado. Minha única lembrança é a visão de um homem nu no coração de uma mata úmida, longínqua daquela terra gélida onde me encontrava. Só sei que durante alguns instantes, depois de retomar a caminhada, a fronteira entre o chão e minhas entranhas me parecera mais tênue, quase invisível.

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Clique nos links abaixo para ler os outros dois contos do conjunto que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo.

O rascante sussurro da noite






sábado, 8 de março de 2014

8 de março [Conto]


Faíscas de sol escorriam por rachaduras na mata fechada e Anaíde corria, sem parar, havia horas. Não sentia mais seu corpo, não sentia suas pernas inchadas rachadas por espinhos, pedras e galhos, não sentia sua pele cortada, seus braços dormentes, o suor misturando-se ao sangue em seu rosto sulcado de escaras. Sentia apenas sua respiração entrecortada e corria, com Adelina nos braços, sem saber para onde.

O abraço do sol engolia o ônibus parado, afogando em calor corpos suados e espremidos. Araci, saia preta abaixo do joelho, blusa escura recatada de manga comprida, o cabelo forçadamente liso, violentado pela escova para esconder sua origem pagã e preso num coque, óculos escuros, subiu os degraus devagar, esforçando o frágil corpo rebentado, empurrada pela correnteza, e esgueirou sua silhueta entre as festas que se abriam no paredão humano até encontrar um canto onde se segurar. Os óculos escondiam um olho inchado, ainda dolorido, e o outro salpicado de vermelho pela insônia.

Jacira estava em pé, segurando-se num corrimão, ao lado dela. Diferentemente de Araci, não disfarçava sua negritude que brincava sinuosamente nas curvas encaracoladas de seu cabelo.

Mariana subiu na parada seguinte, os olhos esverdeados reverberando um desalento rastejante que lhe escorria pelas entranhas, mergulhada numa aflição que a isolava do calor, do suor, do aperto e de tudo o que a rodeava naquele instante, uma aflição calma, persistente, que permeava todo seu corpo. Um rapaz passou atrás dela devagar, aproveitando o espaço apertado para demorar-se, esfregando-se levemente em seus glúteos. Perdida em sua ansiedade, Mariana nem percebeu que o moço estava de pau duro.

Uma senhora sentada na janela ao lado de Francisca, poucos centímetros à frente de Mariana, levantou-se para descer e o rapaz, de reflexos impecáveis, pediu licença a Francisca e ocupou o lugar. Vestia bermuda e ao passar roçou suas pernas peludas nas coxas vigorosas e macias de Francisca, que estava de shortinho, mantendo viva assim sua ereção. Pouco depois de sentar-se, porém, uma raiva violenta o sacudiu. Sentiu nojo, arrependeu-se de ter sentado ali, mas não havia mais o que fazer: o ônibus estava lotado e ele fora um burro. Estivesse na rua, sem tanta gente ao redor, daria uma puta duma lição naquela bicha, lhe ensinaria a deixar de safadeza na peia. Ainda por cima ninguém diria que não é mulher, não fosse pelo gogó que percebeu depois que se sentara e a mapeara de soslaio dos pés à cabeça.  O pior é que era linda, uma pele cabocla marmórea, de um bronze delicado e uma sinuosidade inebriante. Porca nojenta, dava até vontade de trepá-la! Aliás, se estivesse na rua só com ela seria o que faria: a treparia e depois a arrebentaria, para deixar de ser safada. Alguém, por sinal, já devia ter lhe dado uma boa surra, pois seu belo corpo estava visivelmente cravado de hematomas.

Lucy, que subira na mesma parada de Mariana, encontrou lugar em pé bem ao lado da cadeira de Francisca, perto de Araci. Estava radiante, tinha recebido flores de sua namorada e o dia resplandecia em seus olhos.

Lucy fora tudo o que quis ser, mas quase sempre no momento errado. Quis ser mãe, quis ser puta, quis ficar com homens, quis ficar com mulheres, quis brincar, quis ser séria, quis monogamia, quis amores múltiplos e sem amarras, quis ser casta, quis ser devassa, quis ser dona de casa, quis ser artista. Mas quando quis ser mãe, a chamaram de puta. Quando quis ser puta, quiseram força-la a ser casta. Quando quis ser artista, a violentaram para que fosse dona de casa. Quando quis viver amores sem correntes, lhe cobraram monogamia. Quando quis ser monogâmica, a acusaram de ter se vendido. Fora enjaulada em ciúmes e incompreensões, tivera feridas na pele e nas vísceras, superara hematomas e insultos, paus enfiados à força e mordaças que não conseguiram calá-la. Agora era feliz, mesmo afastada de sua família, e sorvia com avidez essa inusitada felicidade.

Francisca ia para a faculdade, estava voltando às aulas depois de um par de dias de convalescência. Frequentava pela manhã porque, desde que fora expulsa de casa, trabalhava nas ruas à noite. Não era raro que apanhasse; sabia que muitos homens procuram travestis para vomitar nelas pulsões recônditas e violências recalcadas e tinha se acostumado a isso. Mas a surra de três dias antes tinha sido mais feroz que de costume. Assim que entrara no carro percebera quem era o cliente, mas como este parecera não ter entendido, ou fingira não tê-lo, ficara calada. Mas quando a penetrara de quatro e ela fingira gemer de gozo, o homem a agarrara pelos cabelos, saíra de dentro dela e começara a espanca-la com brutalidade, sem medir a força dos socos e dos pontapés, arrastrado por um devaneio de aniquilação. Suja e devassada, a pele rasgada, ensanguentada e salpicada de hematomas, fora arremessada violentamente do carro e, antes de arrancar, o homem cuspira nela e a xingara, deixando-a semi-inconsciente no asfalto. Era seu tio, o mesmo que quando criança, quando ainda era Francisco, entrava amiúde em seu quarto fingindo querer brincar, o mesmo que apoiara irrestritamente o irmão quando o jogara nas ruas após descobrir que não era homem e que vestido de mulher não o reconhecera, mas reconhecera imediatamente seu gemido de falso gozo. Fora hospitalizada, tivera que passar uns dias em casa, teria precisado descansar mais, mas preferira retornar à faculdade para não perder mais dias de aula.

Mariana estava voltando ao trabalho depois de uns dias de licença. Uma angústia dilacerante a percorria, tinha brigado feio com a mãe. Fora rejeitada como filha. O dissera entre soluços, o coração esmagado numa aflição inominável, mas não poderia ter agido de outra maneira. Tinha lhe oferecido todo apoio, tinha se disposto a ficar com a criança e a cria-la, e ainda assim a filha quis… não conseguia nem pronunciar aquela palavra… e pior, sem avisar, chegando para ela com o fato consumado. A mãe de Mariana não sabia o quanto aquela decisão tivesse despedaçado suas entranhas. Não sabia e não interessava, o que a filha fizera era inconcebível, abominável. Não importava que tivesse acontecido nas primeiras semanas, não importava que sua filha teria revivido em cada gesto, em cada respiração daquela criança o… aquela palavra também era impronunciável. Enquanto o ônibus deslizava pela avenida naquela tórrida manhã, a dor que estraçalhava as vísceras de Mariana era mais intensa da que tinha sentido na sala clandestina de cirurgia.

Jacira ia para a casa da patroa para mais um dia de serviço. Apesar dos seus patrões não raro a ridicularizarem perante os outros apresentando-a como uma negra burra mas engaçada, gostava daquela família, se sentia parte dela. Naquele dia, Jacira estava angustiada com a ausência de notícias de seu filho mais velho, de dezesseis anos, que não aparecera em casa havia dois dias. Nunca tivera tempo para dedicar-se ao filho como gostaria, mas ultimamente o tinha perdido completamente de vista e uma dor sutil, densa e indecifrável, lhe embrulhava o estômago ao pensar no que podia ter lhe acontecido. A tranquilizava um pouco saber que a filha mais nova, de nove anos, estava na escola, onde a acompanhava todo dia Raimundo, seu atual companheiro. Uma pessoa doce, tranquila, diferentes dos vagabundos bêbados com quem tinha convivido durante anos. Só não sabia, Jacira, porque acordava todo dia muito cedo, antes da filha, que Raimundo despertava sempre a menina com carícias debaixo das roupas e que, antes de leva-la para a escola, costumava brincar com ela enfiando-lhe um dedo na vagina. Não sabia, embora quando criança seu padrasto tivesse feito com ela as mesmas brincadeiras.

Araci ia para o culto matinal. Nas últimas semanas, não passara um único dia sem ser arrebentada ou trepada à força pelo marido. Não conseguia encontrar motivos para que apanhasse, nem para que fosse estuprada. Era diversão, necessidade, rotina, uma brincadeira talvez. Quando, depois de vários dias seguidos de agressões, não conseguindo mais esconder os arranhões e os hematomas, falara daquilo com o pastor, o primeiro que lhe perguntou é o que ela tinha feito para ser castigada, se tinha sido uma má esposa, mas ela sempre fora uma mulher reta, uma esposa impecável, submissa, dedicada integralmente a seu homem, como mandavam as escrituras. Não, não havia motivo, ele devia estar possuído, era a única explicação possível e o pastor concordara, mas precisava ficar calada, aguentar em silêncio e orar com todas suas forças para que o Cão saísse do corpo do marido, nada de contar para quem quer que fosse, ela era uma mulher boa e com suas orações haveria de vencer essa luta contra o mal, contra o demônio que estava pondo à prova sua fé usando como instrumento seu companheiro de lar e de cama.

Os corpos de Lucy e Araci, em pé uma ao lado da outra, iam ficando cada vez mais grudados à medida que o ônibus detinha sua marcha para engolir mais pessoas. Num relâmpago fugaz a pele de Araci foi atravessada por um calafrio rastejante, inexplicável, e de repente, assustada, percebeu que seus mamilos tinham ficado túrgidos. Sufocados pelo sutiã, pareciam querer explodir. Sem entender, deu uma rápida espiada na moça ao seu lado e aquela visão a inquietou. Baixou o olhar e rezou mentalmente uma oração. Estava excitada, teria invadido sem receios a boca delicada, de traços suaves, daquela moça desconhecida de cabelo verde salpicado de gritantes mechas roxas. Satanás, não havia dúvidas, a estava pondo à prova mais uma vez.

Improvisamente, o ônibus parou em um cruzamento e um concerto de buzinas e gritos permeou a ar daquela cálida manhã. Policiais interditavam o transito para deixar passar, na avenida perpendicular, uma manifestação. Uma profusão sinuosa, rítmica de vozes, faixas, cantos, slogans, rostos pintados e corpos multicoloridos desfilava diante do ônibus. Um calor insensato, uma umidade rascante e os poucos metros quadrados em que dezenas de corpos estavam apinhados tornavam a permanência no ônibus insustentável. Muitos passageiros desceram para aguardar a marcha passar do lado de fora; outros, curiosos, foram olhar do que se tratava. Uma torrente feminil transbordava na vizinha avenida. Compassadas melodias entremeavam slogans aguerridos, carregados de indignação e raiva.

Jacira perguntou a outra passageira o que estava acontecendo. Ela não soube responder, mas lembrou-se que era 8 de março e, como tinha quase só mulheres na manifestação, pensou que se tratasse de algum ato ligado àquela data.

Lucy se entusiasmou, desceu do ônibus exultante e decidiu mergulhar na correnteza multiforme. Tirou a blusa e o sutiã, pediu a uma manifestante que escrevesse um slogan em seu peito com o batom que tinha na bolsa e se jogou alegre na multidão dançante. Volúpia arrebatadora, arrepiante sensualidade, Araci só conseguia enxergar aquilo tudo com excitação… o sinuoso rio das manifestantes, a desinibida ousadia daquela moça desconhecida do ônibus, as melodias embriagantes daqueles cantos. Era tudo obra de Satanás, o sabia, mas Satanás lhe parecia tão provocativamente atraente naquele momento.

Francisca observava com cautela, deixava-se inundar pelos slogans que ecoavam da avenida adjacente, que a arrebatavam, e um impulso arrasador a empurrava para aquela correnteza em cheia. Mas tinha medo, um medo entranhado em suas veias que lhe secava a garganta e lhe subia pelos ossos, imobilizando-a. A vontade de mergulhar naquele compasso e deixar-se dançar a inebriava, mas o medo era tão poderoso, estava tão incrustado em suas vísceras que a deteve. Uma caminhonete do Bope acompanhava a macha à distância e alguém, em pé na caçamba com uma câmera profissional, apontava seu objetivo para algumas manifestantes. Uma gota fria percorreu as costas de Francisca. Aquelas mulheres serão vigiadas, perseguidas? Ninguém poderia prever as consequências de se envolver naquilo. Decidiu, apenas, observar. Acendeu um cigarro, encostou-se numa parede e contemplou, extasiada, aquela multidão esbanjando gozo e ira.

Jacira ligou para a patroa, que atendeu o celular em plena depilação. Hoje se sentia de bom humor e dispensou Jacira do serviço, apesar de achar inconcebível que uma manifestação pudesse parar o transito em horário de pico sem mais nem menos e a polícia, ao invés de baixar o cassetete nas manifestantes, as ajudasse a atrapalhar a vida dos motoristas e das pessoas de bem. Mas, claro, com uma comunista no poder o que era de se esperar? Às vezes dava mesmo vontade de mandar-se para Miami. De qualquer forma, hoje era melhor se Jacira não fosse: era dia da mulher e sabia que o esposo voltaria para casa na hora do almoço, com flores para ela, e a levaria para um restaurante bacana. Depois, com ninguém em casa porque os filhos iam estar na escola e Jacira fora dispensada, o convenceria a fazer algo melhor do que voltar para o trabalho. Enquanto suportava estoicamente a ingrata dor da depilação do púbis, lia no tablet a notícia da rejeição que a Globeleza daquele ano tivera por parte do público. Não é de se estranhar, pensou. Apesar de ter um corpo bonito era preta demais, feia que nem Jacira, coitada. Tudo bem que para sambar nua na tevê tinha que ser uma mulata, mas negona mesmo, daquele jeito, era demais. A demora a enervava, queria que aquele suplício terminasse logo, ia ficar bem lisinha e macia como ele gostava, hoje haveriam de se divertir, o sacrifício para agradar seu homem valeria a pena. Enquanto suportava que arrancassem os pêlos de sua vagina, não sabia que seu marido estava trepando uma colega de trabalho numa salinha contígua ao escritório dele, de quatro, como corresponde a uma rapidinha no serviço.

Jacira ficou aliviada com a decisão da patroa e pensou que se fosse até a rua paralela talvez tivesse a sorte de encontrar um ônibus na direção contrária e conseguiria voltar para a casa antes da filha sair para a escola. Estava feliz, pelo menos naquele dia teria um pouco de tempo para ela, para a filha, para o companheiro e para sair em busca de notícias de seu menino. A patroa era gente fina. Enquanto se dirigia à outra rua à procura de um ônibus para voltar para casa, sua menina ia sendo acordada por Raimundo como todos os dias. Desta vez, quem sabe Jacira chegasse antes dele leva-la para a escola.

Cintilando em letras vibrantes, palavras tatuadas em faixas, cartazes, costas, colos rasgavam o intestino de Mariana. Não conseguia esquecer o nojo, a repulsa, a dor, o medo, a vontade de se matar depois daquilo que sofrera, mas também não conseguia esquecer a dilaceração, o abalo que a sacudira ao tomar aquela decisão e, sobretudo, não conseguia esquecer o olhar severo e triste, carregado de angústia e reprovação da mãe. Uma mão invisível apertava-lhe a garganta, ia sufocando-a aos poucos. Quis respirar. Suas pernas a levaram sozinhas, porque seu querer estava paralisado. Simplesmente, entrou na correnteza e se deixou carregar. Sua boca cortou o silêncio denso de seu estômago e começou a gritar, quase autonomamente, os slogans que escutava. Não sabia o que viria depois, não sabia mais nada. Apenas, caminhava.

Araci não resistira às investidas de Satanás. Numa ruela transversal, escondida por trás de uma caçamba, deslizara avidamente sua mão por debaixo da saia e a calcinha, que transbordava tesão e umidade. Fechou os olhos e as imagens daquela moça de cabelo verde e roxo de peito nu, pequeno e rijo, branquelo mas com os mamilos levemente bronzeados, e daquela multidão envolvente, melódica, sinuosa desfilaram pela sua pele e a arrastraram numa enxurrada selvagem, embriagadora. Gozou intensamente, um gozo vivo, autêntico, como havia muito tempo não sentia, gemeu e nem cuidou de abafar seu gemido, afinal com o estrondo da rua e da marcha ninguém iria ouvi-la.

Recomposta, voltou perto do ônibus e se deteve contemplando a manifestação. Se sentia leve, feliz, embevecida de pecado. Lembrou-se do facão com que cortava verduras, aquele com que uma vez o marido brincara retalhando suas costas, ainda guardava as cicatrizes. Chegando em casa o esconderia na saia. Se o marido voltasse a encostar um dedo nela, o desembainharia e deixaria Jesus guiar sua mão. A justiça dos homens talvez a condenasse, mas tinha certeza de que Jesus não o faria, ele era misericordioso.


Anaíde corria para não ser fenda negra, abismo carnoso em que despejar gozo de branco, corria para não ser vaca de parir, corria para não ser lasca de pele escura para peles brancas de macho se esfregarem, corria para não ser penetrada de quatro e torturada por ciúme por outra escrava só que branca e bem vestida, corria para não ser diversão familiar enquanto era esfolada a chicotadas amarrada nua a um pedaço de pedra, corria por Adelina, para que as duas conhecessem outra vida. Simplesmente corria, sem saber para onde.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Certa história de amor (um sonho, quiçá)

Parte de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.

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Una mujer se ha perdido
conocer el delirio y el polvo,
se ha perdido esta bella locura,
su breve cintura debajo de mí.
Se ha perdido mi forma de amar,
se ha perdido mi huella en su mar.
   
Silvio Rodríguez


O lembro como se fosse ontem, sua voz que parecia nascer-lhe do olhar, seus olhos tão obscenamente intensos, seu cabelo que modulava a forma do vento.

No dia em que me suicidei, Havana resplandecia envolta no manto alaranjado do pôr do sol. A ressaca jogava notas melancólicas nas rochas tristes do Malecón e raros carros rasgavam a cortina de resignada apatia que envolvia o crepúsculo da cidade.

Me joguei no mar pensando em quando voltara a encontrar-te, poucas horas antes, numa tarde de inverno, em uma Madri acariciada por uma chuva sutil cujas gotas diminutas tingiam de cinza a vitrine daquele bar em Atocha onde tinha me refugiado.

Na hora de me jogar ao Atlântico me ocorreram o estrondo infernal das bombas, os edifícios de Madri destroçados, as crianças com os ouvidos tampados nos refúgios, as lágrimas das mães que encontravam seus filhos mortos debaixo dos escombros e aquele cinza escuro e denso que tinha engolido a cidade e nossos corpos.

Lembra da nossa touca, aquela patética espelunca perto da Glorieta de Embajadores onde vendias teu corpo? Quem diria que aquele lugar onde nos amamos pela primeira vez, eu miliciano estrangeiro ferido numa guerra que não era a minha, mas me pertencia, tu puta enamorada – assim, pelo menos, me fizestes acreditar – quase cinquenta anos depois seria pela segunda vez o berço do meu primeiro amor?

Nos reconhecemos logo, apesar de que tínhamos mudado muito. Permanecemos calados muito tempo, não sei quanto, teu olhar ausente, vagamente doce mergulhado numa xícara de café vazia, o meu perdido atrás de gotas fugidias que se perseguiam, fundiam e esvaeciam em efêmeras brincadeiras na vitrine do bar. Passamos minutos, minutos eternos que pareceram dias, sem trocar uma palavra. Te observava de soslaio, discretamente, tentando decifrar os leves movimentos dos teus dedos.

Quero te contar uma história, dissestes de repente, e então levantei o olhar e te fitei, ou talvez fitasse tua voz que media o ritmo do tempo naquele bar envolto num cinza escuro que lembrava a época escura em que nos tínhamos conhecido. Vivia um jovem numa terra distante, um jovem sem casa e sem nome, sem passado e sem futuro, um jovem que cruzava as ruas de uma cidade imensa, anônima quanto ele, batendo carteiras nas esquinas, fazendo malabares nos sinais, cheirando cola quando a fome apertava. Um dia, uma moça o viu pedindo esmolas num sinal e decidiu levá-lo para a sua casa, lhe deu comida e preparou uma cama onde pudesse descansar. Seu olhar enigmático, cativante, penetrou nas entranhas no rapaz, desnudando-as. Se apaixonaram, mas não podiam se amar, pois ela era filha de um deus, um deus poderoso, e o sangue divino não pode fundir-se com o dos mortais. O amor que não podia tornar-se carne, pele, arrepios e umidade jogou os dois no desespero. A moça, não aguentando tanto sofrimento, selou um pacto com o pai: tornou-se humana e pagou como preço a perda da imortalidade e do seu sexo. Agora era um homem, mas o rapaz não quis amar outro homem. Assim, também procurou os deuses e eles aceitaram transformá-lo em mulher. Os deuses, porém, exigiram-lhe em troca uma sina que aceitou carregar sem pestanejar, estava disposto a tudo para viver seu amor, mas cuja natureza não quiseram lhe antecipar. A moça, agora um homem, tinha fugido para terras longínquas pela dor de não ser amada. O moço, mulher, foi buscá-la naquelas terras, mas não a encontrou, e lá teve que pagar o pedágio que os deuses lhe predisseram.

Não importa se então não te encontrei, o que importa é que agora estás aqui, que possamos voltar a nos amar como cinquenta anos atrás, agora como então sou jovem e nunca possui uma mulher, não me olhe por favor, não tão intensamente, teu olhar me cega como aquela vez na avenida do Parco delle Cascine em Florença quando eu era mulher e puta escrava e você homem e me iluminou com os faróis do carro, teu olhar cega mais que aqueles faróis no meio da madrugada, será que vai me amar assim como me amou na guerra?, afinal você também era um puta, não sei, agora o único que quero é sentir teus lábios umedecendo-me, esfregar minha pele eriçada em teu corpo nu, voltar a saborear o aroma de teu púbis que lembra as ondas do Malecón estraçalhando-se nas rochas, teus mamilos que têm o sabor da terra, aquela terra que quando a pisava me parecia demasiado dura.

Percorrermos o Paseo del Prado imersos nas recordações de umas vidas que, embora não foram as nossas, nos tinham parecidos tais. Em Cibeles saquei a coragem para te dizer o quanto tinha te amado, ou pelo menos tinha acreditado amar-te debaixo das bombas. Talvez fosse o medo daqueles dias o que se apoderou de mim enquanto passeávamos por Recoletos, mas na Plaza de Colón resolvi finalmente te beijar. Era a primeira vez que beijava uma mulher, a segunda primeira vez da minha vida, e enquanto minha língua percorria as dobras remotas da tua língua, enquanto se impregnava das texturas e os sabores mais recônditos da tua boca, enquanto explorava a região entre teus lábios e tuas gengivas e meus lábios absorviam avidamente tua umidade, senti aquela mesma sensação de jangada arrastada pelas ondas que me invadiu no dia em que, com a mesma idade de então, te beijei num refúgio enquanto os aviões fascistas destroçavam Madri.

Lembra da patética espelunca perto da Glorieta de Embajadores onde eu vivia (quem sabe a mesma onde você tinha vivido cinquenta anos antes?), suas paredes descascadas a lembrar os prédios da Havana Velha, as rachaduras do teto de onde caiam gotas que pareciam roçar o silêncio, o frio que impregnava tudo e que acabou impregnando os nossos ossos? Não sei se foi lá onde nos amáramos pela primeira vez, o único que sei é que quando acordei você dormia no meu peito; porém, já não era suave e evanescente como a garoa daquela tarde de inverno em Madri, mas marmórea como a mulher cuja história tinha me contado horas antes, e o calor úmido do trópico esmagava o quarto e os nossos corpos.

Como foi, não lembro mais como descobri que o que você buscava não era o meu amor, mas cavalgar a ilusão de uma vida melhor, talvez seja esse o sentido do verbo jinetear que vocês usam tanto, devia tê-lo entendido desde o início, mas o que importa?, o que importa é que não sei se alguma vez me amastes... foi por isso que me matei.

Não me pergunte como posso estar aqui agora, sentando contigo na grama do Retiro, lembrando meu suicídio: não sei responder. Também não sei como pode ter ocorrido tudo em um dia.


Talvez seja verdade, talvez um devaneio, não sei, não quero saber. O que importa é que pelo menos uma vez na vida acreditei que você me amou, e se foi um sonho qual a diferença? Você mesma talvez seja um sonho... e quiçá eu também.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O rascante sussurro da noite - 4ª e Última Parte

Parte de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.

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Continuação…




O dia na universidade tinha sido esgotante, os olhos de Slatko se mantinham abertos à força. Acabava de descer na parada de casa e cruzar a esquina, uma viatura da polícia militar com as luzes apagadas se aproximou dele, um instante, só conseguiu enxergar dois vultos, duas fardas sem rosto, lembra que lhe faltou o ar, uma mão apertava-lhe a boca, outras mãos torceram-lhe os braços e o empurraram para dentro, o que está acontecendo?, sua vista embaçou-se, o mundo se tornou uma tela caótica de cores borradas e tons de preto, não sabia quanto tempo passou, não conseguia respirar, ar, por favor, quero ar, não entendia as perguntas, o que querem saber?, o que querem de mim?, a sacola de plástico o sufocava, os chutes e os golpes de cassetete nas costas e na cabeça o atordoavam, por quê?, por quê isso tudo?, não enxergava mais nada, queria dormir, o sono e a dor se fundiam em seu rosto, Carol observava o céu e uma inquietação informe lhe devorava o estomago, por quê o celular de Slatko estava desligado?, ar, ar por favor, como queria dormir, só isso, dormir, talvez aquilo tudo fosse um sonho.

Aquela foto… Carol sentiu uma mão invisível agarrar-lhe o pescoço e durante uns segundos achou que iria morrer sufocada. Aquela foto divulgada no jornal e compartilhada nas redes sociais. Slatko tinha visitado a ocupação um dia antes que acabasse levando comida para Carol, roupa limpa e notícias de María José, de quem a ex-sogra estava cuidando temporariamente. Um fotógrafo do diário de maior circulação da cidade o flagraram em meio a uma vintena de mascarados. A única pessoa com o rosto descoberto. María José estava dormindo, Carol correu no banheiro e jogou água gelada na cara, o ar estava voltando aos poucos, mas um frio improviso, que parecia nascer-lhe do peito, gelou seu rosto e em segundos se infiltrou nas dobras mais íntimas do seu corpo inteiro. O celular de Slatko estava desligado, sem motivo, e aquela foto… Ele precisa saber, pensou enquanto se agasalhava inutilmente daquele frio que provinha de suas próprias entranhas. Quando aparecer, precisa saber. Mas – o frio se tornou tão intenso que a paralisou – voltará a aparecer? Uma obsessão macabra penetrou em seus ossos desde o fundo de sua alma: seu pior pesadelo, que quase todo o dia há anos a atormentava, parecia estar se tornando presságio.

A quem denunciar o desaparecimento, se foi a própria polícia provavelmente quem o levou? O centro de direitos humanos, companheiros de velha data, os primeiros que a acolheram quando chegara a Natal e a ajudaram a reconstruir sua vida, sim, eles eram os únicos que poderiam fazer alguma coisa. Tremendo de frio, a pele estremecida por uma angústia inominável, agarrou seu celular. Antes de ligar, entrou numa rede social. #CadêSlatko O grito lhe brotou das vísceras, na esperança de que alguém, quem quer que fosse, o escutasse e compartilhasse.

De repente, viu. Não sabia quantas horas haviam passado, se estava sonhando ou desperto, o corpo cravado de hematomas, as feridas internas, a pele queimada, rasgada, nada disso importava, não sentia mais dor, mesmo enquanto seguravam sua cabeça num balde cheio d’água, não conseguia respirar, mas o que importava?, naquele instante, enquanto simulavam afoga-lo para que confessasse que tinha depredado a Câmara Municipal e delatasse os demais participantes da ocupação, naquele instante ele viu. Viu Miroslav, viu sua casa em Mostar, viu homens armados, viu o pai de Miroslav, sérvio-bósnio casado com uma muçulmana, viveram anos juntos, criaram juntos a filha do primeiro casamento dela com um bósnio-croata, se amavam, mas alguns diziam que aquilo era uma aberração, que a origem de todos os males dos sérvios da Bósnia era a convivência com os muçulmanos e os croatas, era preciso limpar a nação, começando pelas famílias, e as pessoas acreditavam. Viu Miroslav, aos quinze anos, apontando um revólver para a irmã, obrigando-a a se despir na frente de outros homens que observavam a cena encorajando-o, excitados, o viu ficar de pau duro, ele que nunca antes tinha transado, mas em cujas fantasias a primeira e até então única inspiração tinha sido a própria irmã, o viu violentá-la repetidamente na frente de dezenas de homens, o viu extasiar-se com seus gritos de pânico e horror, gozar com suas lágrimas e sofrimento, viu a irmã de Miroslav sendo estuprada por toda a milícia antes de ser amarrada a uma árvore e ter os genitais mutilados a facadas e finalmente, quase um ato de piedade, ser crivada de balas. Viu Miroslav atirar a queima-roupa em seu pai que não quis entregar sua esposa à milícia, traidor da causa sérvia. Viu a mãe de Miroslav estuprada por uma matilha de milicianos na frente dele e depois decapitada, a cabeça dela empalada junto a dezenas de outras, e viu Miroslav excitado, imbuído de violência e de ideais de pureza, o viu torturar, estuprar, assassinar dezenas, centenas de pessoas, sem culpa, às vezes com medo, com a convicção íntima, a certeza irremovível de que estava agindo pelo bem de seu povo. Viu relâmpagos, cortes, fragmentos esparsos do mosaico de uma adolescência, uma adolescência que o curso da história incentivara a abafar, na tentativa vã de erradica-la da consciência. Uma adolescência impronunciável, que não conseguia articular em palavras e assim parecia ter desvanecido da memória. Quando voluntários de uma ONG o tinham resgatado das ruas, em Bolonha, não lembrava seu nome nem como tinha chegado até lá. Não tinha documentos, era preciso começar do zero. Então se autobatizara Slatko, que em sérvio que dizer doce e é também o nome de uma compota que pode ser feita com frutas ou pétalas de rosa. Naquele instante, enquanto os descendentes dos capitães-do-mato o afogavam, ele viu.

Tinham passado poucas horas, mas #CadêSlatko já era um viral nas redes sociais e o telejornal do meio dia repercutira o desaparecimento de um suposto envolvido na ocupação da Câmara. Talvez tivesse sido isso a salvá-lo, ou talvez o fato dos sequestradores terem descoberto a tempo que era um professor universitário, um favelado ou um estudante da periferia com certeza não teriam tido a mesma sorte. Foi encontrado vivo, desmaiado e com sinais evidentes de tortura, à margem da BR na entrada da cidade.

Fugiram por alguns dias para uma casa de pescadores no topo de uma duna num viçoso rincão do litoral potiguar, onde o Rio Tubarão penetra docemente, qual amante delicado, na imensidão acolhedora do Atlântico e manguezais, praia, dunas e caatinga entrelaçam-se numa dança inebriante e imprevisível. Um céu límpido respingado de estrelas, o farfalhar das folhas dos mangues ao vento, o canto das ondas ao longe: a noite ia tecendo um leve sussurro ao redor do mundo, que se tornava estrídulo e rascante enquanto Carol lembrava, contando a Slatko o que achava que ele precisava saber.

Lorenzo, o primeiro homem com quem tinha compartilhado muito mais do que noites de gozo, a aguardava imóvel, o olhar inquieto, o que houve?, uma angústia indizível nascia-lhe do fundo da garganta, fazia anos que as Abuelas investigavam sua origem, a obsessão que o atormentava desde que descobrira que era filho de desaparecidos, e finalmente tinham descoberto a identidade de sua mãe, Carol não entendeu, Lorenzo deveria estar radiante, aguardava aquele momento há anos, por quê aquela angústia?, afinal quem era sua mãe? Florencia Menotti, uma estudante de Rosario desaparecida em julho de 1976. Carol sentiu seu corpo estilhaçar-se, como se um rio em cheia violenta tivesse transbordado de seu útero, despedaçando-a. Florencia Menotti, sua mãe, era também a mãe de Lorenzo, o homem com quem tinha concebido María José.


Encostou a cabeça no peito de Slatko, que acariciou seu cabelo. Cabelo macio, levemente ondulado, que parecia acompanhar o canto das cigarras daquela noite clara, de uma suavidade dilacerante. O cheiro delicado do cabelo de Carol apaziguou por uns instantes a ânsia informe que escorria em suas veias. Ela também precisa saber, pensou. Quis abrir a boca, mas deixou para lá. Não tinha certeza de qual vida tinha vivido realmente, a de Miroslav ou a de Slatko. Talvez nenhuma delas. O eco das ondas, desde a restinga, acalentava o ar enquanto a noite engolia seus vultos abraçados.