quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O rascante sussurro da noite - 4ª e Última Parte

Parte de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.

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Continuação…




O dia na universidade tinha sido esgotante, os olhos de Slatko se mantinham abertos à força. Acabava de descer na parada de casa e cruzar a esquina, uma viatura da polícia militar com as luzes apagadas se aproximou dele, um instante, só conseguiu enxergar dois vultos, duas fardas sem rosto, lembra que lhe faltou o ar, uma mão apertava-lhe a boca, outras mãos torceram-lhe os braços e o empurraram para dentro, o que está acontecendo?, sua vista embaçou-se, o mundo se tornou uma tela caótica de cores borradas e tons de preto, não sabia quanto tempo passou, não conseguia respirar, ar, por favor, quero ar, não entendia as perguntas, o que querem saber?, o que querem de mim?, a sacola de plástico o sufocava, os chutes e os golpes de cassetete nas costas e na cabeça o atordoavam, por quê?, por quê isso tudo?, não enxergava mais nada, queria dormir, o sono e a dor se fundiam em seu rosto, Carol observava o céu e uma inquietação informe lhe devorava o estomago, por quê o celular de Slatko estava desligado?, ar, ar por favor, como queria dormir, só isso, dormir, talvez aquilo tudo fosse um sonho.

Aquela foto… Carol sentiu uma mão invisível agarrar-lhe o pescoço e durante uns segundos achou que iria morrer sufocada. Aquela foto divulgada no jornal e compartilhada nas redes sociais. Slatko tinha visitado a ocupação um dia antes que acabasse levando comida para Carol, roupa limpa e notícias de María José, de quem a ex-sogra estava cuidando temporariamente. Um fotógrafo do diário de maior circulação da cidade o flagraram em meio a uma vintena de mascarados. A única pessoa com o rosto descoberto. María José estava dormindo, Carol correu no banheiro e jogou água gelada na cara, o ar estava voltando aos poucos, mas um frio improviso, que parecia nascer-lhe do peito, gelou seu rosto e em segundos se infiltrou nas dobras mais íntimas do seu corpo inteiro. O celular de Slatko estava desligado, sem motivo, e aquela foto… Ele precisa saber, pensou enquanto se agasalhava inutilmente daquele frio que provinha de suas próprias entranhas. Quando aparecer, precisa saber. Mas – o frio se tornou tão intenso que a paralisou – voltará a aparecer? Uma obsessão macabra penetrou em seus ossos desde o fundo de sua alma: seu pior pesadelo, que quase todo o dia há anos a atormentava, parecia estar se tornando presságio.

A quem denunciar o desaparecimento, se foi a própria polícia provavelmente quem o levou? O centro de direitos humanos, companheiros de velha data, os primeiros que a acolheram quando chegara a Natal e a ajudaram a reconstruir sua vida, sim, eles eram os únicos que poderiam fazer alguma coisa. Tremendo de frio, a pele estremecida por uma angústia inominável, agarrou seu celular. Antes de ligar, entrou numa rede social. #CadêSlatko O grito lhe brotou das vísceras, na esperança de que alguém, quem quer que fosse, o escutasse e compartilhasse.

De repente, viu. Não sabia quantas horas haviam passado, se estava sonhando ou desperto, o corpo cravado de hematomas, as feridas internas, a pele queimada, rasgada, nada disso importava, não sentia mais dor, mesmo enquanto seguravam sua cabeça num balde cheio d’água, não conseguia respirar, mas o que importava?, naquele instante, enquanto simulavam afoga-lo para que confessasse que tinha depredado a Câmara Municipal e delatasse os demais participantes da ocupação, naquele instante ele viu. Viu Miroslav, viu sua casa em Mostar, viu homens armados, viu o pai de Miroslav, sérvio-bósnio casado com uma muçulmana, viveram anos juntos, criaram juntos a filha do primeiro casamento dela com um bósnio-croata, se amavam, mas alguns diziam que aquilo era uma aberração, que a origem de todos os males dos sérvios da Bósnia era a convivência com os muçulmanos e os croatas, era preciso limpar a nação, começando pelas famílias, e as pessoas acreditavam. Viu Miroslav, aos quinze anos, apontando um revólver para a irmã, obrigando-a a se despir na frente de outros homens que observavam a cena encorajando-o, excitados, o viu ficar de pau duro, ele que nunca antes tinha transado, mas em cujas fantasias a primeira e até então única inspiração tinha sido a própria irmã, o viu violentá-la repetidamente na frente de dezenas de homens, o viu extasiar-se com seus gritos de pânico e horror, gozar com suas lágrimas e sofrimento, viu a irmã de Miroslav sendo estuprada por toda a milícia antes de ser amarrada a uma árvore e ter os genitais mutilados a facadas e finalmente, quase um ato de piedade, ser crivada de balas. Viu Miroslav atirar a queima-roupa em seu pai que não quis entregar sua esposa à milícia, traidor da causa sérvia. Viu a mãe de Miroslav estuprada por uma matilha de milicianos na frente dele e depois decapitada, a cabeça dela empalada junto a dezenas de outras, e viu Miroslav excitado, imbuído de violência e de ideais de pureza, o viu torturar, estuprar, assassinar dezenas, centenas de pessoas, sem culpa, às vezes com medo, com a convicção íntima, a certeza irremovível de que estava agindo pelo bem de seu povo. Viu relâmpagos, cortes, fragmentos esparsos do mosaico de uma adolescência, uma adolescência que o curso da história incentivara a abafar, na tentativa vã de erradica-la da consciência. Uma adolescência impronunciável, que não conseguia articular em palavras e assim parecia ter desvanecido da memória. Quando voluntários de uma ONG o tinham resgatado das ruas, em Bolonha, não lembrava seu nome nem como tinha chegado até lá. Não tinha documentos, era preciso começar do zero. Então se autobatizara Slatko, que em sérvio que dizer doce e é também o nome de uma compota que pode ser feita com frutas ou pétalas de rosa. Naquele instante, enquanto os descendentes dos capitães-do-mato o afogavam, ele viu.

Tinham passado poucas horas, mas #CadêSlatko já era um viral nas redes sociais e o telejornal do meio dia repercutira o desaparecimento de um suposto envolvido na ocupação da Câmara. Talvez tivesse sido isso a salvá-lo, ou talvez o fato dos sequestradores terem descoberto a tempo que era um professor universitário, um favelado ou um estudante da periferia com certeza não teriam tido a mesma sorte. Foi encontrado vivo, desmaiado e com sinais evidentes de tortura, à margem da BR na entrada da cidade.

Fugiram por alguns dias para uma casa de pescadores no topo de uma duna num viçoso rincão do litoral potiguar, onde o Rio Tubarão penetra docemente, qual amante delicado, na imensidão acolhedora do Atlântico e manguezais, praia, dunas e caatinga entrelaçam-se numa dança inebriante e imprevisível. Um céu límpido respingado de estrelas, o farfalhar das folhas dos mangues ao vento, o canto das ondas ao longe: a noite ia tecendo um leve sussurro ao redor do mundo, que se tornava estrídulo e rascante enquanto Carol lembrava, contando a Slatko o que achava que ele precisava saber.

Lorenzo, o primeiro homem com quem tinha compartilhado muito mais do que noites de gozo, a aguardava imóvel, o olhar inquieto, o que houve?, uma angústia indizível nascia-lhe do fundo da garganta, fazia anos que as Abuelas investigavam sua origem, a obsessão que o atormentava desde que descobrira que era filho de desaparecidos, e finalmente tinham descoberto a identidade de sua mãe, Carol não entendeu, Lorenzo deveria estar radiante, aguardava aquele momento há anos, por quê aquela angústia?, afinal quem era sua mãe? Florencia Menotti, uma estudante de Rosario desaparecida em julho de 1976. Carol sentiu seu corpo estilhaçar-se, como se um rio em cheia violenta tivesse transbordado de seu útero, despedaçando-a. Florencia Menotti, sua mãe, era também a mãe de Lorenzo, o homem com quem tinha concebido María José.


Encostou a cabeça no peito de Slatko, que acariciou seu cabelo. Cabelo macio, levemente ondulado, que parecia acompanhar o canto das cigarras daquela noite clara, de uma suavidade dilacerante. O cheiro delicado do cabelo de Carol apaziguou por uns instantes a ânsia informe que escorria em suas veias. Ela também precisa saber, pensou. Quis abrir a boca, mas deixou para lá. Não tinha certeza de qual vida tinha vivido realmente, a de Miroslav ou a de Slatko. Talvez nenhuma delas. O eco das ondas, desde a restinga, acalentava o ar enquanto a noite engolia seus vultos abraçados.

2 comentários:

  1. Nobre, grande texto, enorme sensibilidade.
    Um abraço.
    Barreto

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  2. Muito obrigado, meu caro amigo! Um grande abraço.

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