quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Um choro abafado no escuro (Conto) - 2ª Parte


Para ler a primeira parte do conto, clique aqui.

Quando a prenderam, seu menino Carlos, que ainda não tinha dois anos, estava com ela. Planejava leva-lo para a casa da avó, no Nordeste, mas não se sentia segura em pegar um ônibus que cruzaria o país inteiro, muito menos um avião sabendo que seu nome poderia estar nas listas de terroristas procurados pela segurança nacional. Achava engraçado: estudantes que se reuniam para ler Marx, Gramsci, Lukács e refletir sobre a política do país, organizavam manifestações e performances, escutavam música de protesto e o mais perigoso que faziam era vez por outra pichar umas paredes eram perigosos terroristas. Mas Emanoel tinha sido preso uns meses antes e o nome dela poderia estar na lista dos procurados, não podia se arriscar. Alguns companheiros do movimento estudantil tinham enveredado para a luta armada, a repressão estava caindo em cima de quem quer que os conhecesse e ela com certeza estava na mira. Não estava acostumada com a clandestinidade, mas conhecia quem podia ajuda-la a falsificar sua identidade para viajar com segurança. Por enquanto, Carlos estava com ela. Até quando, depois de arrombarem a porta da casa da amiga, invadi-la e revirá-la por completo a encontraram num quarto secundário, pequeno e semiescondido com a criança nos braços e o menino começara a gritar desesperadamente. Emanoel nunca soube exatamente o que acontecera aquela noite. Companheiros que estiveram presos com Anaí tinham lhe contado que um dos sequestradores, incomodado com o choro da criança, teria lhe dado uma coronhada de fuzil na cabeça. A única certeza era que seu menino de menos de dois anos tinha morrido naquela mesma noite num hospital da serra fluminense, onde a amiga de Anaí o levara depois do sequestro da mãe, e o laudo médico apontava “traumatismo craniano”, sem mais detalhes. Emanoel soubera da morte de seu filho muitas semanas mais tarde, quando estava no presídio, e só pôde ir para o hospital onde Carlos morrera quinze anos depois, quando regressara ao Brasil após um longo exílio. Tivera acesso ao laudo, mas o médico que o redigira e que tinha atendido o menino não trabalhava mais lá. Desistira de ir atrás dele, achava que não teria forças para encarar o que tinha acontecido com seu filho. Quando, quinze anos antes, no presídio, lhe falaram que Anaí tinha sido presa, estava desaparecida e Carlos tinha morrido só não caíra nas garras da loucura porque a contabilidade de cada sevícia mantinha viva sua lucidez, alimentando seu ódio. Com as entranhas despedaçadas o ódio era sua fonte de vida, a corda que o segurava toda vez que seu corpo e sua vontade ameaçavam ceder e jogá-lo no abismo da insânia. No exílio conseguira voltar a viver, conseguira voltar a amar, mas nunca mais quisera ser pai e, antes de voltar a ficar com qualquer mulher, fizera vasectomia.

Vira companheiros serem assassinados na sua frente ou não resistirem aos maus-tratos. Vira amigos morrerem eletrocutados, afogados, estrangulados ou em consequência de espancamentos. Lembrava com profusão de detalhes cada sessão de tortura: não havia um choque, uma pancada, uma queimadura, uma ferida que não estivesse tatuada, cravada a ferro e fogo em sua memória. Seu corpo era um mapa de tatuagens invisíveis, qualquer marca física do que vivera tinha sido apagada, mas continuava tudo vivo debaixo de sua pele.

me prenderam no dia em que o Brasil ganhou o tricampeonato mundial, quatro a um contra a Itália no Estádio Azteca da Cidade do México… não esqueci um minuto daquelas horas longas, pesadas, permeadas de angústia e entusiasmo… aquele bar em Copacabana afundado em verde-amarelo, bandeiras penduradas, camisas amarelas empapadas de suor frio, cerveja escorrendo em rios, amigos fumando nervosamente, meu coração literalmente rasgado: a paixão ou a consciência, quem venceria naquele dia? e Anaí que preferira assistir em casa porque Carlos era pequeno, será que tivera uma premonição do que aconteceria? ia ficar com eles, mas a galera me tentou insistentemente, todo o mundo ia estar lá, que ingenuidade achar que uma turma ligada ao movimento estudantil poderia assistir um jogo de futebol num lugar público, mas o que esperar de uns garotos de pouco mais de vinte anos, não sabíamos nada da vida, apesar de alguns de nós já serem pais éramos moleques, aprendizes de gente… sabíamos do AI-5, mas que perigo representávamos? o único que fizéramos até então eram reuniões de leitura e discussão num grupo amador de estudos marxistas, umas performances semi-improvisadas, participar em duas ou três manifestações, o que a ditadura tinha a temer de nós? que babacas! o coração explodia em minha garganta, uma parte de mim queria que aqueles surdo-cegos embrulhados de verde-amarelo recebessem uma brutal paulada na cara, que se sentissem como um viciado quando acaba a droga e ao olhar-se no espelho percebe o lixo sórdido que se tornou, mas a cada lance da seleção a parte de mim que restava saltava da cadeira em ânsia e em delírio… crepitei de arrebatamento ao gol de Pelé, chafurdei na aflição após o empate de Boninsegna, me estremeci com o gol de Jairzinho, respirei aliviado e chorei de felicidade com os gols de Gerson e Carlos Alberto Torres… lembro de cada abraço, amigos, desconhecidos, homens, mulheres, travestis, todos vibráramos em uníssono, nossos suores se miscigenando, as lágrimas de uns molhando os rostos dos outros… o álcool ainda se misturava ao júbilo em minhas veias quando saia do bar com uma mão no ombro de um amigo e na outra uma garrafa de cerveja, iria buscar um orelhão para ligar para Anaí, foram instantes, um carro sem placa parou ao nosso lado, dois energúmenos saíram e nos empurraram para dentro, um torno invisível me sufocava, pancadas, dor de cabeça, uma sensação de incredulidade, uma névoa invadindo meus olhos, o mundo tornando-se um rascunho borrado, depois disso não lembro mais nada, só que acordei me afogando, uma mão segurando minha cabeça num balde cheio d’água… naquele momento lembrei de minha mãe, suas lágrimas ao despedir-se na minha partida para o Rio, aquele abraço demorado, segundos intermináveis, um abraço que permaneceu até hoje em minhas entranhas, ia fazer faculdade, três anos, três anos desde que saíra de Natal, da minha infância, lembrei-me disso naquele instante e senti uma saudade despedaçante…

Natal, cujas curvas de areia, em suas lembranças encharcadas de saudade, dançavam sinuosas ao compasso das ondas deixando entrever pelas frestas de sua mata segredos indizíveis, excitantes enigmas de uma amante altiva que tinha virado as costas ao seu rio e os seus mangues e se embatucava de maquiagem para disfarçar sua miséria. Remoto rincão na esquina do vento, ereção oriental de um continente desgarrado (quiçá apontando para a vulva inatingível, esquecida da Mãe África… às vezes, pelo menos, assim pensava), veia sangrante de uma terra infeliz, eternamente dilacerada entre resignação teimosa e irredutível rebeldia. Em sua memória, não passava da lânguida e por vezes melancólica parceira de momentos felizes de uma inocência inexoravelmente perdida, se é que alguma vez realmente existira. Tinha voltado a viver em sua cidade natal vinte anos depois de tê-la abandonado, quinze depois de ser jogado no exílio, e quando chegara quase nada tinha mudado, embora não se parecesse mais à amante gentil e sensual de suas saudades, mas ao curral provinciano escravizado por oligarquias que no íntimo sempre soubera que era, mas cuja verdadeira natureza recusava-se a evocar. Nos quase trinta anos que se seguiram ao seu regresso a vira crescer, caótica e descontrolada, devorando suas orlas e encostas, assassinando suas matas, estuprando seu solo de onde rebentavam a cada dia, como horríveis excrescências, novos arranha-céus. A vira tornar-se um pátio de vizinhos grotescamente disfarçado de metrópole, seus lugares públicos largados às traças ou privatizados, shoppings tomando o lugar das praças: vira sua aldeia natal tornar-se um amontoado esparso de condomínios de luxo e barracos mergulhados no vazio de ruas sem calçadas, sem árvores, sem vida, meras pistas de trânsito.

Continua…

Para ler a terceira parte do conto, clique aqui.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Um choro abafado no escuro (Conto) - 1ª Parte

Foto: Evandro Teixeira

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Esse samba no escuro.

Chico Buarque

Esquartejar sim, comer tua merda não?

por que caralho o fiz, por que peguei nessa lagartixa? será que mereço este suplício? não tinha nada contra eles, nada! nunca matei nenhum! e para que, me pergunto? para, agora que sou um velho, estar com a cara enfiada na bosta e neste vômito que não consegui segurar? nunca fui um santo, mas sempre cumpri meu dever, nunca trai ninguém… de muitos tinha até pena, eram uns meninos… quando Marta fez dezoito anos e lhe dei os parabéns, não sei por que, mas enxerguei de repente uma daquelas garotas, alguma coisa em seu olhar, uma faísca, uma expectativa ansiosa, não sei bem, vi uma daquelas garotas e senti estilhaços em minha garganta, foi só por alguns segundos, mas nunca o esqueci… por que lembrei de Marta, porra? isso me estraçalha… muito mais do que esta merda na cara, este cheiro nauseabundo, das pancadas, do que estar acorrentado neste porão, nesta escuridão, jogado sei lá onde, num buraco qualquer do inferno… será que mereci o inferno? eu, que sempre fui um homem íntegro… não sinto remorso, diz ele, e deveria? não sei o que aconteceu com aquela moça, não sei o que aconteceu com nenhum deles, para que remexer com o passado? meu deus, pare com isso, me solte, me jogue num terreno baldio e deixe que me encontrem, nunca te odiei, fiz aquilo que me mandavam, sou uma pessoa de bem… Marta deve estar devastada com meu sumiço, e Lourdes… deus queira que não tenha tido um infarto… meu deus, faz que seja um pesadelo… será que eles sentiam o mesmo? será que também rezavam em silêncio?… talvez pensassem em suas famílias, na angústia que devia torturar os seus pais… sempre fui forte, sou homem, mas a porra dessas lágrimas, puta que pariu, não desçam cacete! não quero chorar… quer saber? vão se foder! querem rolar? que rolem… só ele está me vendo… será que vai limpar essa porcaria na minha cara?

Emanoel observava, imóvel, o velho homem amarrado na cadeira. Tinha começado a chorar em silêncio como, décadas atrás, ele mesmo fizera tantas vezes. O deviam estar atravessando a mesma impotência, a mesma incredulidade, o mesmo medo. Quem sabe o mesmo senso de ridículo que tudo aquilo, então, lhe despertava. Se é que este tipo de gente sente alguma coisa, pensou. Muitas vezes, pendurado no pau-de-arara, enquanto cada pancada ressoava em suas vísceras, se perguntara o que estariam sentindo, no que estariam pensando eles. Não raro lhe parecera vislumbrar em seu olhar lampejos de gozo. Por isso o enfurecia e desnorteava a teimosia daquele velho em negar qualquer prazer, até mesmo qualquer ódio.

não, filho de rapariga, vocês nos odiavam porque encarnávamos a resistência dos oprimidos pelo regime genocida de que você e sua corja eram lacaios, porque éramos a consciência suja dos donos da Casa Grande de que vocês são cães da guarda, vocês, capitães-do-mato que executam o trabalho sujo para deixar as mãos de seus patrões imaculadas… vocês se embriagavam de nossos gritos, se inebriavam de nosso sofrimento, tremiam de orgasmo toda vez que nossos corpos se contorciam em espasmos, atravessados pelos choques que aplicavam com meticuloso cuidado em nossos testículos, em nossas línguas, em nosso anus, nos mamilos e nas vaginas de nossas companheiras…. era um desfrute insano, um prazer rastejante, uma euforia obscena…

cumpria ordens, diz…. não nos odiava, nem se envolvia com política, apenas cumpria ordens… apagavam cigarros em nossa pele, enfiavam nossas cabeças em baldes de mijo, nos abrasavam com óleo ardente, eletrocutavam nossos genitais e apenas cumpriam ordens… e aquelas centelhas em seus olhares, aquela excitação mal disfarçada a cada gemido nosso de dor? não, os gringos talvez até tivessem lhes ensinado que era necessário ficar frios e impassíveis, que estavam apenas cumprindo seu dever, mas no fundo de suas almas vocês trepidavam, se regozijavam com nossas sevícias, eu sei, eu vi, eu senti, senti em cada soco, em cada paulada, em cada choque, em cada aperto da minha garganta seu deleite pornográfico…

Emanoel não esquecera um único golpe, um único tremor, uma única lágrima de todas as que derramara naqueles dois intermináveis anos no DOI-CODI, onde passara as primeiras semanas, e em Bangu, onde ficara até que o exilassem em um “pacote” de presos políticos negociado por uma embaixada estrangeira. Outros tentaram esquecer, procuraram um sentido, qualquer coisa a que agarrar-se para recomeçar a viver, para não mergulhar num abismo sem fundo de ansiedade, desespero e absurdo. Alguns construíram novas militâncias, se aferraram a novas causas ou retomaram, à distância, a luta contra o regime para que tudo o que tinham sofrido se encaixasse num desenho coerente. Outros, ainda, não aguentaram e se suicidaram. Ele recomeçara a viver, recomeçara a militar, até recomeçara a amar, mesmo que tivessem lhe tirado Anaí e nunca tivesse conseguido saber em que circunstâncias fora assassinada e o paradeiro de seus restos mortais. Muitos anos mais tarde, amigos que tinham sido torturados com ela e que tinham sobrevivido lhe contaram que a prenderam alguns meses depois dele, de madrugada, na casa de uma amiga numa aldeia na serra onde achava que estaria segura. Soube que chegara à sede do batalhão onde funcionava o centro de tortura de camisola e que, na mesma noite, fora estuprada por pelo menos cinco homens. Depois de sabe-lo, Emanoel acordara todo dia durante anos em plena madrugada, um suor gélido escorrendo-lhe pelas costas, náusea, tremores e a sensação de que um garrote invisível ia esmagando-lhe lentamente a garganta. Acreditava que iria morrer sufocado, tinha que escancarar a janela e só aos poucos conseguia voltar a respirar. Nunca explicara à esposa os motivos. Fora para psiquiatras, fizera terapias, mas nunca revelara para ninguém que durante anos, toda noite, tinha sonhado com Anaí, sua jamais esquecida paixão da juventude, a mãe do único filho que tivera em sua vida, e sonhava nela amarrada em pé, uma corrente em cada pulso e cada tornozelo, nua, sua pele acobreada refletindo intermitentemente feixes de uma luz oca e seu corpo frágil, esguio tremendo enquanto sombras silenciosas de uma turba sem rosto se aproximavam dela e a lambiam inteira, uivando, e depois a invadiam selvagemente um por um, extasiando-se com seu gritos.

Continua…

Para ler a segunda parte do conto, clique aqui  - Para ler a terceira parte, clique aqui.

domingo, 25 de maio de 2014

Esboços e retalhos



Fonte da imagem:

Um acampamento de indignados que, aos poucos, se torna um quilombo urbano que acolhe os fugitivos, desajustados e marginais de uma sufocante Capitania Hereditária contemporânea na esquina da terra do pau-brasil. Uma transsexual à obstinada procura de alguém que lhe arrancaram brutalmente. O encontro cáustico de um ex-torturado da ditadura militar com um de seus torturadores. Uma viajem psicodélica ao quinto dos infernos, sob a guia de um contador de histórias morto, e um desconcertante encontro com o drama do casal Paula e Francisca. A viagem sem rumo de uma filha de desaparecidos argentinos pela Patagônia, à procura de um sentido após um trauma que desgarrou sua vida. A chegada à cidade de uma menina fugida do Sertão, seu perambular a esmo pelas ruas da metrópole e a procura apaixonada de um caminho para a África. Uma blogueira que descobriu verdades incômodas. Um imigrante clandestino à procura de um ancoradouro. A fuga mata adentro de um jovem para escapar da polícia. Um estrangeiro em luta com seu passado. A roda viva pairando acima de todos, com sua violência inexorável, ameaçando varrer tudo pra lá.

Dar vida a tudo isso? Vários contos? Costurar esses fragmentos num romance, lançando-me pela primeira vez nesta aventura? Ou, simplesmente, deixar tudo para lá?

segunda-feira, 31 de março de 2014

Nunca Mais


Hoje, 31 de março de 2014, é um dia de luto. Exatamente 50 anos atrás, o país que escolhi como mátria adotiva foi vítima de um golpe civil-militar baseado numa mentira, sistematicamente construída e veiculada pela grande mídia: a de que a violenta derrubada do Estado de direito seria uma medida temporária de "restabelecimento da ordem" contra um (totalmente inexistente) projeto de transformar o Brasil numa "ditadura comunista" que o presidente democraticamente em exercício, João Goulart, estaria promovendo.

Essa "medida temporária" durou 21 anos, fechou o Congresso Nacional, cassou prefeitos e governadores democraticamente eleitos, implantou a censura, perseguiu, sequestrou, torturou, assassinou e fez desaparecer milhares de pessoas, exterminou inteiras comunidades camponesas e populações indígenas e executou um plano de desenvolvimento dirigido pelo capital transnacional que endividou o país, escancarou o abismo social entre os mais ricos e os mais pobres, entranhou a corrupção no seio do sistema político e econômico e semeou nas mentes e corações ideias bárbaras sobre a segurança, a justiça, os direitos humanos, a família, as minorias étnicas, culturais, religiosas e de gênero, sobre os papéis do homem e da mulher... ideias que ainda permeiam o imaginário e fundamentam práticas sociais, encarnando sua mais infame herança.

Charge de Carlos Latuff

Contra a ignorância produto de mais de vinte anos de lavagem cerebral goebbelsiana operada por uma eficientíssima sinergia entre grandes meios de comunicação, sistema educacional, produtos da indústria cultural e a herança cognitiva de cinco séculos de Capitanias Hereditárias, não está demais lembrar que o sequestro, a tortura (com requintes de brutalidade: pau de arara, álcool nos olhos e nos ouvidos, choques elétricos nos genitais e na língua, entre outras "técnicas"), o estupro (no caso das mulheres, duplamente vítimas: do regime e do machismo), o assassinato e o desaparecimento de cadáveres não foram práticas episódicas, ocasionais nem muito menos restritas àqueles que praticavam a luta armada contra a ditadura.

A tortura, o assassinato, o desaparecimento de pessoas e o extermínio perpetrado das mais diversas formas (inclusive, jogando de avião alimentos envenenados - oferecidos como "ajudas humanitárias" - em aldeias indígenas, para matar de uma vez só toda a população delas e abrir caminho na construção da Transamazônica) foram práticas sistemáticas do regime que se iniciou em 31 de março de 1964, praticas que faziam parte de um plano global - friamente planejado e mecanicamente executado - de erradicação do tecido social de toda e qualquer forma de pensamento e modo de viver cuja existência ameaçasse o projeto desenvolvimentista conservador dos generais, empresários e capitais nacionais e estrangeiros que mantinham em pé a ditadura. Práticas que massacraram não poucas dezenas, nem algumas centenas, mas centenas de milhares de pessoas: povos indígenas inteiros, comunidades rurais e, nas cidades, não apenas militantes armados, mas estudantes, jornalistas, intelectuais, artistas, sindicalistas, lideranças políticas, educadores, até estilistas e crianças de um ano de idade... toda e qualquer pessoa, a maioria das quais não pegava em armas, que ao ver do regime representasse um perigo para a "segurança nacional".

Esse tipo de práticas, quando planejadas e executadas de forma sistemática, é chamado na linguagem jurídica internacional de genocídio.

Hoje é um dia de luto porque, exatamente 50 anos atrás, começava um genocídio físico e simbólico do povo brasileiro, de cujas consequências ele ainda não se recuperou.

domingo, 16 de março de 2014

A tênue fronteira entre o chão e as entranhas

Foto: Antonino Condorelli (Terra do Fogo, 2006)

O último de um conjunto de três contos que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo, organizado pela Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte.

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Lentamente, um homem abriu os olhos. Flutuava num torvelinho indistinto de formas e cores. Aos poucos, foram-se delineando contornos mais nítidos. Sentiu que tinha acordado. Estava nu, no coração de uma mata. Altas árvores de copas frondosas fechavam o céu, criando um ambiente úmido e escuro. Uma miríade de árvores menores, plantas, flores de diversas cores e tamanhos, cipós entrelaçavam-se numa teia intricada e a primeira vista impenetrável, densa e grávida de vida. Tênues raios de sol infiltravam-se entre as frestas deixadas pela vegetação, reverberando-se nas infinitas formas da mata circunstante, confundindo a visão. Não soprava um hálito de vento, tudo parecia imóvel, mas o homem pressentia que tudo estava em movimento, um movimento incessante que assemelhava-se a uma dança estonteante. Da mais alta árvore ao mais fino fio de relva, nada estava imóvel.

Aconteceu inesperadamente, num dia gélido de começo de outono na extremidade austral do planeta, aquele rincão que alguns gostam de chamar os últimos confins da Terra, embora talvez os derradeiros confins do mundo sejam só os da nossa mente. Meses antes tinha deixado para trás – pelo menos, assim pensava - minhas amarguras e neuroses e, agarrada uma mochila, tinha começado a perambular sem rumo pelas veredas, amiúde desgarradas, da América do Sul.

Estava atravessando a pé o Parque Nacional Tierra del Fuego respirando a plenos pulmões o ar límpido daquela manhã, fascinado por uma imponente floresta de lengas e guindos, árvores fueguinas mergulhadas num emaranhado sub-bosque de arbustos espinhosos, e devido ao meu passo deliberadamente lento e pausado os demais caminhantes com quem tinha começado a trilha já estavam fora do alcance da minha vista. O dia tinha amanhecido sereno, mas no meio da manhã o céu escureceu repentinamente e logo após começou a nevar. Em poucos minutos, o caminho na minha frente e o bosque inteiro se tornaram um óleo sobre tela de inúmeras nuances de branco e de cinza.

Os colegas da escola me apelidavam Condor. Desde pequeno, sinto uma atração avassaladora por essa ave. Para os povos dos Andes Centrais, o condor é símbolo de liberdade. Talvez seja porque mora em picos inacessíveis, porque voa tão alto como quem se liberta das amarras, dos pertencimentos e apegos, porque seus voos o aproximam do sol, porque pode penetrar nas nuvens, se impregnar de vento, olhar a terra e os seres que a habitam desde uma altura de onde toda e qualquer fronteira revela inelutavelmente sua natureza ilusória. A primeira vez que tinha visto um condor ao vivo, porém, não tinha sido no céu, mas na terra, na estepe patagônica aos pés dos Andes da província de Santa Cruz, enquanto devorava a carcaça de um cordeiro. Aconteceu dias antes daquela manhã de outono. Foi desse jeito brutal que descobri que o condor, esta majestosa ave de inatingíveis voos, é também um abutre que se alimenta de carniça.

Avançava com dificuldade, afundando meus pés numa camada de neve cada vez mais espessa e na lama em que a terra debaixo dela tinha se transformado. O vento jogava rajadas de neve na minha cara cortando-a de frio, molhando e embaçando meus óculos e impedindo-me enxergar nitidamente o caminho. Meus músculos enrijeceram-se, sentia meu estômago despedaçar-se, acreditava que iria vomitar meu coração. Me senti só, uma solidão infinita como a daquele bosque indiferente, fria como aquela manhã que em poucos minutos tinha me jogado nas garras dos meus mais sádicos demônios.

Respirei fundo, pensei que só precisava continuar pelo caminho que estava percorrendo, que apesar da neve impedir enxergar muito longe havia apenas que seguir pela pista já aberta no meio do bosque e que em algum momento, mais cedo ou mais tarde, iria desembocar na estrada que me levaria até a saída do parque. Segui em frente, lutando ferozmente contra o fantasma que tentava me possuir e, inutilmente expulso da cabeça, se infiltrava sorrateiramente pelas frestas do meu intestino. Um fantasma que não tinha como afastar e me jogava na cara, a cada instante, o pesadelo de não ter forças suficientes para chegar até o fim, de me perder no meio da nevasca que poderia apagar a senda, de morrer de frio e fome antes de reencontrar o caminho. Só escutava o estridor do vento; se algum pássaro cantasse, se o sub-bosque produzisse sons que sugerissem a presença de algum animal nos arredores, se um galho se quebrasse não o perceberia.

Melodias envolventes entremeavam-se a alaridos estridentes, cantos politonais, acordes arrítmicos, agudos desafinados ou harmonicamente compassados que compunham uma sinfonia que embalava e sacudia, abraçava e chocalhava. Seres estranhos pululavam por todo lado, silenciosamente ou gemendo, produzindo cantigas, sussurros, sibilos, grunhidos e sons indecifráveis, buscando-se, pegando-se, batendo-se ou ignorando-se.

Seres alados de todos os tamanhos povoavam os galhos, tingindo-os com plumagens vibrantes ou confundindo-se com a vegetação, com bicos enormes e coloridos ou fininhos e discretos. Seres alongados, rastejantes, de peles de aparência viscosa de vez em quando apareciam entre as pedras ou pendurados nas árvores. Seres peludos, de manto levemente dourado ou cinza escuro com listras brancas, ou avermelhado com jubas escuras, com pernas, braços e mãos semelhantes aos humanos apareciam aqui e acolá entre os galhos e nos cipós, brincando, colhendo frutas ou simplesmente observando, curiosos, o homem. Miríades de pequenos seres de aparência preta ou avermelhada, de diferentes tamanhos, formando longas filas compactas ou em pequenos grupos atravessavam os chão, galgavam as pedras, subiam ou desciam pelos troncos das árvores, saindo de buracos na terra ou sendo por estes engolidos. Pequenos seres alados, das mais variadas cores e tamanhos, zuniam esporadicamente em seus ouvidos, grudavam-se em sua pele, picavam-no causando-lhe ardência e coceira, rondavam a seu redor ou simplesmente o ignoravam, ocupados em outros afazeres. Diminutos seres alados de asas coloridas, listradas ou pontilhadas com tonalidades ora vibrantes ora suaves, deslumbrantes ou apaziguantes pousavam de vez em quando em seu ombro ou esvoaçavam livres ao seu redor.

No princípio era o verbo, mas nada daquilo tinha nome. Percebeu que ele tampouco tinha um.

Como a neve espessa cobria muitas vezes os sinais do caminho, várias vezes me perdi, desemboquei em becos sem saída que davam para o boque fechado e tive que voltar nos meus passos até reencontrar o lugar a partir de onde tinha tomado a direção errada. De repente, lembrei do condor com o bico ensanguentado dilacerando as carnes de um cordeiro. Naquele instante, me senti umbilicalmente amarrado ao chão. Não importa quão longe tivesse querido e tentado fugir: o chão estava comigo, o carregava em minhas células. Mas a terra parecia tão distante, tão indiferente: estava lá, mas uma muralha imensa, intransponível a separava das minhas entranhas.

Continuando a caminhada, de algumas brechas entre as árvores vislumbrei o mar e umas ilhotas à distância. Percebi que estava costeando uma praia e, pouco depois, desemboquei nela. Na minha frente desenhava-se uma enseada rochosa cravada de arbustos, completamente coberta de neve, acariciada por um mar límpido, sereno, apesar da tormenta que o céu estava desabando na terra, de onde podiam avistar-se algumas ilhas do Canal de Beagle igualmente pintadas de branco. De repente, tão improvisamente como tinha começado, parou de nevar.

Estava encharcado, coberto de lama, cansado e ainda com alguns quilômetros de caminho pela frente, mas naquele momento, diante daquela visão inaudita para um filho dos trópicos, daquele abraço de neve e mar, nada disso me importava. Me sentei numa rocha, respirei serenamente o ar limpo daquela enseada, me deixei chicotear pelo vento que não mais me incomodava e, por não sei quanto tempo, apenas olhei e escutei. Estava só junto ao mar, às rochas, aos arbustos, ao vento, à neve e ao canto distante de alguns cormorões.

Nada daquilo tinha nome, nem ele mesmo. Mas ele nomeou. Nasceram animais, plantas, pássaros, insetos, répteis, rios e cachoeiras, folhas e rochas e, com elas, nasceu aquele homem.

Não sei quanto tempo passei lá, se adormeci ou fiquei acordado. Minha única lembrança é a visão de um homem nu no coração de uma mata úmida, longínqua daquela terra gélida onde me encontrava. Só sei que durante alguns instantes, depois de retomar a caminhada, a fronteira entre o chão e minhas entranhas me parecera mais tênue, quase invisível.

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Clique nos links abaixo para ler os outros dois contos do conjunto que ganhou o segundo prêmio no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo.

O rascante sussurro da noite






sexta-feira, 14 de março de 2014

Poesia não é verso


Poesia não é negação de prosa: é faísca, desvio, gozo, é um relâmpago de improvável, é incerteza, arrepio, crespa que se abre brecha no tecido liso da palavra. Poesia é o cotidiano aos olhos de um viajante. Poesia não é verso: é a palavra instável, inadequada, obscena, inútil, por isso mesmo a palavra imprescindível, onde quer que desabroche. Poesia é sujeira, é merda, é esperma, é mijo, é vômito, é medo, é neurose, é obsessão, é entrelinha, é a beleza, a impermanência, a verdade e a mentira de tudo isso: poesia é abrir os olhos e estar aqui. Somos todos prosadores, soltando vez por outra fagulhas de poesia.

domingo, 9 de março de 2014

"A Grande Beleza" está mais para "O Grande Engodo"


Ontem assisti, na casa de um amigo cinéfilo, La Grande Bellezza de Paolo Sorrentino, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro. Sinceramente, não o achei um filme marcante, daqueles destinados a se tornarem imprescindíveis. Me pareceu mais uma colcha de retalhos, essencialmente mal costurada, de clichês estéticos e temáticos sobre a Itália, elevando uma Roma a meio caminho entre folheto turístico e caricatura felliniana a emblema par excellance desse concentrado de lugares comuns: uma varanda com vista no Coliseu servindo de palco para noites boêmias regadas a bebida, sexo e vazio existencial; suntuosos palácios antigos repletos de estátuas, fontes, igrejas, parque constelados de ruínas de um passado que - claro! - continua estendendo sua sombra gigante e opressiva sobre o presente (o que é, afinal, a Itália para a maioria dos estrangeiros se não ruínas eternas de um glorioso passado?); um desfile de personagens grotescos, caricatos, estéreis sombras do mundo de Fellini sem nada de novo e autêntico a acrescentar debruçados sobre o vazio de uma existência mundana entremeada de tédio, a um só tempo deprimente e exuberante; a inevitável Igreja Católica com sua hipocrisia, seu apreço por riqueza e poder, suas hostes de cardeais frívolos e cínicos e suas santas pobres e de fé autêntica que resgatam os verdadeiros valores da cristandade.

Acrescente-se uma boa dose de cenas inutilmente "fellinianas" - só na superfície, sem chegar a sequer roçar o âmago autêntico, visceral do universo do mestre - totalmente desnecessárias no contexto da narrativa e teremos um coquetel perfeito para o Oscar.

Enfim, um longa "para americano (e brasileiro, etc.) ver", um produto sistemática e friamente calculado para agradar o paladar cinematográfico internacional, especialmente norte-americano, e para ganhar a cobiçada estatueta. Só não é uma obra totalmente descartável pela bela interpretação de Sabrina Ferilli, pela razoável caracterização do personagem central - o desencantado, cínico e boêmio ex-escritor Jep Gambardella - feita por Toni Servillo, e pela genialidade de alguns diálogos e monólogos.


Logo após a exibição terminar, a frase è solo un trucco (é só uma ilusão) - com a qual o protagonista encerra o longa - nos pareceu, a mim e a meu anfitrião, uma perfeita síntese da obra.

Assista o trailer de La Grande Bellezzahttp://www.youtube.com/watch?v=wKvCxmQQ3IA